Crônica do poeta | 06 de Dezembro de 2011 - 09:56

Doutor Liberdade

Muita gente boa sem banco de reserva que eu gostava (e continuo gostando) sem conhecer já morreu. A maioria de compositores e/ou intérpretes nacionais: Clara Nunes, Elis, Gonzaguinha, Tom Jobim, Tim Maia, Renato Russo, Cartola, Zé Ketti, Vinicius de Moraes e poucos outros. Há os atores/atrizes também: Paulo Autran, Lílian Lemmertz, Dina Sfat, Armando Bogus, Paulo Gracindo, Gianfrancesco Guarnieri, Nelson Dantas, José Lewgoy, Zilka Salaberry e, também, poucos outros.

Nunca havia ficado triste com a morte de um jogador de futebol. Decerto que meus quatro ídolos das quatro linhas ainda estão vivos (Roberto Dinamite, Zico, Leandro e Romário), porém, a morte de Sócrates, me deixou pra lá de triste: me deixou angustiado.

Eu amava o Sócrates. Lembro bem da primeira vez, ainda molequinho, que vi aquele sujeito desengonçado, magrelo e cabeludo na televisão jogando pelo Botafogo de Ribeirão Preto e logo depois pelo Corinthians. Mas o grande e inesquecível momento de Sócrates foi na seleção de 82. Ele havia parado de fumar e de beber para se preparar para a Copa. Estava voando. Desfilou a sua elegância, o seu toque refinado, a sua inteligência na Espanha e para o mundo. Coisa raríssima. Coisa de craque. Mas a genialidade de Sócrates ultrapassou as quatro linhas e ganhou o campo dos ideais de liberdade e democracia. Sócrates e seus companheiros do Timão conquistaram a Democracia Corintiana: a vez do voto e da maioria. Acabaram com a ditadura da concentração. Todos se apresentavam duas horas antes do jogo. Ninguém faltava ou chegava atrasado. Uma revolução, pois a liberdade exige muito mais responsabilidade. E coragem também.

Sócrates nos ensinou que é possível fazer o que se gosta. Apesar de médico formado, realizou-se com a pelota. Feito um moleque travesso nos campinhos de Ribeirão, compartilhou da sua nobreza pelos gramados do mundo. Nunca foi campeão brasileiro e nem tampouco mundial. Não precisou. Soube viver a sua liberdade e, especialmente, soube exigir que a respeitassem.

Torço muito para que ele esteja bem e quem sabe procurar o meu pai por lá para baterem um papo sobre futebol, especialidade de ambos. Já vi os olhos do meu pai rasos d’água vendo a seleção jogar. Vai sair boa conversa, tenho certeza. E se tiver um barzinho de sem álcool por lá, vai firmar, né mesmo papai? Né mesmo, Doutor?

Espero Doutor, que você esteja e fique bem. Vai dar saudade na gente. Muitas. Se estiver com o meu pai, diga que tenho muitas saudades dele e que faz muita falta na minha vida.

Beijão pra você.

Descanse em paz.


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Sobre o autor

Marlos Degani é poeta. Autor do livro "Sangue da palavra". Ganhou diversos prêmios, entre eles: Prêmio SESC de Poesia – Unidade São João de Meriti - 1996, Prêmio Jornal O Globo – Melhor Redação - 2000, Prêmio Helena Kolody – Governo do Paraná – 2001 e mais recentemente o Prêmio Canon de Poesia de 2009 e o da Livraria Asabeça de 2010.

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