ChoveQuandoQuer | 15 de Outubro de 2011 - 19:47

O aleijão

Fazia algumas semanas já que não o via. Depois da mudança, resolvi refazer o meu itinerário, embora soubesse que poderia fazer a baldeação no mesmo ponto, no local onde antes nos encontrávamos quase diariamente, a caminho do trabalho. Por mais de um motivo, eu precisei me mudar. E reformular toda minha vida de uma vez.

As primeiras noites, enquanto arrumava a casa nova, foram relativamente tranquilas, apesar do caos inicial. Mas, depois disso, não havia muito mais o que fazer, e as noites em casa passaram a me afogar num tédio pegajoso. Sendo pleno verão, o calor quase insuportável só piorava as coisas. Tomava seguidos banhos, e algumas vezes desci, ao cair da noite, até a lanchonete na calçada do prédio para tomar um suco gelado. Às vezes, sem me dar conta da hora, deparava-me com as portas da lanchonete fechadas. Isso aconteceu umas duas vezes, e já passava das três da madrugada.

Naquele sábado, acordei aflita, incomodada; dormira mal a noite inteira e o calor já castigava de manhã bem cedo. Um apartamento próximo entrara em obras, e as pancadas de marreta tiniam alto, ritmadamente. As moscas invadiram a cozinha, vinham e pousavam nos meus ombros, zumbiam irritantemente. Resolvi me vestir e sair para caminhar um pouco; acabei dentro de um ônibus que me deixou na entrada do parque da cidade.

Quando me vi ali, que diferença! Entrei e fui me deixando ficar; aos poucos, fui me deixando seduzir pelo verde frescor daquele ambiente calmo que me rodeava, entregando-me ao projeto de cuidar de mim mesma integralmente ao menos por um dia. Resolvi passar o dia ali, meditando solitariamente, caminhando enquanto procurava sentir no corpo sadio a brisa que soprava entre os ramos das árvores e fazia um ruído agradável, delicado.

Depois de uma hora ou hora e meia de caminhada já me doíam um pouco as pernas, procurei um banco para descansar. Para meu alívio, havia um banco vazio logo à frente, no caminhozinho à direita de onde eu vinha, e deixei-me repousar ali, recostando a nuca sobre o banco e olhando para o alto. Fechei os olhos e inspirei profundamente. Relaxei e me esqueci do tempo.

Enquanto me entregava a esse reconfortante esquecimento, alguém veio sentar-se ao meu lado.

Era ele. Demorei um pouco a perceber isso, mas quando afinal o reconheci, gelei por dentro. Imediatamente, todos os meus músculos se retesaram. Meu coração disparou de susto, foi crescendo, ficou enorme e veio subindo; parecia querer sair pela boca, ou até pelos olhos, se a boca não se abrisse. Fiquei parada, congelada, olhando para a frente, temendo esboçar o menor movimento. Ele, por seu turno, permanecia calmo, olhando também para a frente, mas sem demonstrar o mínimo abalo. Tenho certeza de que não se sentara ali por acaso. Queria que eu o visse.

Acho que se tivesse pernas, teria corrido dali à toda, sumido, me evaporado. Mas não pude, congelei. Lentamente, fui tentando retomar o autocontrole. Ele apenas parecia saber o que estava acontecendo e esperar pacientemente que eu me refizesse. Por muitos minutos, não abriu a boca. Aliás – dou-me conta agora –, não disse nunca uma só palavra. Parecia melhor comunicar-se comigo apenas pelo som de sua respiração. No fim das contas, mesmo isso pode ter sido só minha interpretação.

A presença dele havia sacudido tudo dentro de mim, num abalo sísmico tão vigoroso e profundo que não restara pedra sobre pedra. Não havia chão onde eu pudesse por os pés, não havia certeza alguma neste mundo, tudo se movia, mudava de tom, de cor, de aspecto e de sentido, rodava em turbilhão e se perdia por completo. Meu passado, varrido a custo para debaixo de um tapete do qual imaginava já ter me livrado junto com tudo o que escondia, agora desabava sobre mim como desaba um prédio inteiro: pois ele estava ali, tudo estava ali, o passado comprimido nesse infinitésimo de segundo que é o único presente possível, e onde todo o tempo existe. Os minutos giravam em torvelinho em volta dos meus olhos e ouvidos. Em lugar de se seguirem uns aos outros, sobrepunham-se, enovelavam-se, rodopiavam velozmente, arrastando-me num furacão. Quem me visse naquele instante, teria visto uma estátua de cera com o olhar cristalizado, enquanto por dentro eu disparava em desvario pelo mundo.

Em seguida, um novo choque, impiedoso, veio dar cabo do que ainda resistia: senti sua mão pousando sobre a minha.

Seu toque incendiou-me a mão esquerda. Por ela penetraram em mim todos os momentos do passado em comum, num ardor tão vívido como ácido queimando-me os nervos. Vi-me completamente desestruturada, sentindo esvanecer-se minha identidade, escapar de mim a noção de quem era. Conheci o desespero mais profundo.

Faz muitos anos já que esse encontro aconteceu. Nunca mais o vi, depois que ele se levantou dali e me deixou naquele estado que, fisicamente, não pude abandonar senão depois de muitas horas, e que emocionalmente persiste, creio que para sempre, talvez. Desde então carrego comigo essa cicatriz medonha; essa marca que é como uma queimadura de terceiro grau na carne da minha alma; essa deformidade horrorosa; esse aleijão de nervos, ossos e tecidos retorcidos que pesa como grilhões de humilhação na extremidade do meu braço esquerdo; essa parte deformada do meu corpo, que desejaria extirpar se pudesse — minha própria mão.
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