HOCUS POCUS
Toca o telefone. Meu dileto amigo Lafa esbraveja indignado sobre um infeliz comentário de Antônio Abujamra em seu Provocações, exibido na TV Cultura e Educativa, quando perguntou, quase afirmando, para a entrevistada alemã (que morou cerca de um ano e meio na Baixada Fluminense para realizar atividades acadêmicas), em tom debochado e arrogante, que certamente ela teria conhecido muitos traficantes e criminosos durante a sua estada na região. A pesquisadora negou as duas possibilidades. Esse é um assunto longo e complexo que merece severa exclusividade. Ela virá numa outra ocasião, mas fica mais do que claro e exposto que nós aqui da Baixada Fluminense carregamos um incômodo estigma de terra de ninguém, onde existem grupos de extermínio e nada mais. Algo como o Brasil para os desinformados de fora: banana, carnaval, mulatas e sacanagem.
Sabemos, de fato, que muitas barbaridades acontecem impunemente nos municípios da Baixada, vide a chacina de 31 de março de 2005 que nos chocou, envergonhou e que trouxe à tona uma triste e cruel realidade. Mesmo indignados, não podemos conceber a idéia de que somos feitos apenas de acontecimento ruins. Uma das propostas desse espaço é a de justamente colaborar na dissipação dessas nuvens e abrir o caminho para que todos tenham a oportunidade de saber que temos um jeito, uma digital, uma soma polivalente de várias culturas, uma explosão de arte e de artistas maravilhosos, de tendências e de belezas naturais. Gostamos muito daqui e das coisas que acontecem por aqui.
O Abracadabra é um desses bons exemplos. O Abra tem uma história fascinante de muita luta e trabalho do meu amigo Marcelo e de sua mulher Aline. Foi inaugurado em outubro de 92 em Nova Iguaçu, depois de três tentativas fracassadas de outros empresários naquele ponto comercial.
O Abacadabra, na verdade, reuniu a partir daquela época, uma turma que gosta de se sentir em casa, de ouvir boa música, mas que também aprecia um serviço profissional de mesa e de cozinha. E, nesses aspectos, o Abracadabra tem bala na agulha para dar e vender: excelente cozinha, chope geladão e serviço de mesa muito bem realizado. Marcelo sabe das coisas. Acredita que os principais fatores num estabelecimento como o dele são a primazia de seus produtos e a forma como são servidos. Foi o primeiro empresário que efetivamente começou a entrega de pizzas em Nova Iguaçu, serviço hoje disseminado entre bons e péssimos seguidores.
Mas o Abra tem mais. É o único bar do Rio de Janeiro que conheço que mantém uma mesma atração num mesmo dia há mais de 12 anos. Marcelo Tuan e Ilton Manhães são os donos do palco do Abra nas noites de sábado e, só vendo para crer, lotam o bar invariavelmente, faça chuva, faça lua. São figuras especiais, de muito talento, de muita alegria quando realizam os seus trabalhos. Por isso, renovam o seu público e mantêm o frescor das antigas e das novas canções. Dos antigos e dos novos arranjos. Dos antigos e dos novos corações. Marcelo Tuan e Ilton são amigos queridos e fazem um espetáculo de qualidade incontestável. Já vi muita gente de outros lugares que os viram ali, naquele cantinho, e voltaram outras e outras vezes.
O Abracadabra já organizou um lendário Festival de Música Brasileira, Halloweens, Carnatais (para quem não sabe: um carnaval no dia 24/12) e a festa inesquecível dos 10 anos; até casamento já rolou no bar. É isso aí. Um doido fez questão de se casar por ali mesmo.
Marcelo sempre se preocupou com a imagem bacana que o seu bar angariou com o tempo, associada às atividades culturais, e conta uma história legal, quando foi um dos patrocinadores de um show de Flávio Venturini em Nova Iguaçu. O pessoal lá da produção do show não cumpriu o que havia prometido como contrapartida ao investimento de apoio e ele, furioso, reclamava aos brados. Até que o próprio Venturini ouviu as reclamações e soltou no microfone que, encerrado o show, ele iria para o Abracadabra dar uma canja e beber um chopinho. Vocês devem imaginar o que aconteceu: aquela esquina estava que não cabia uma pulga. Lotadaça. E o Venturini veio, bebeu e tocou.
Falar sobre o Abacadabra é falar de um pedaço da minha vida e da de muita gente querida. Uma esquina maquiada como se fosse o quintal de nossa casa, ali, bem no centro de Nova Iguaçu. Um canto de muitas histórias, amores, canções, canjas, poemas, porres e amigos: gente que vinha, gente que vem, gente que se foi, gente que voltou, gente que virá, gente que nunca mais, enfim, vidas em seus tempos e intervalos misteriosos.
O Abra é poesia purinha. É a chave mágica que abre as portas de uma Baixada mais gentil, mais amiga e mais gostosa.
Marcelão, vou lançar a minha mandinga:
Hocus Pocus, Lupulus, Cevadus, Salamim. Abra as torneiras das chopeiras do Abra para mim!
Marlos Degani