Por onde andará a poesia? Como está sendo veiculada?
Pergunto e respondo. De diversas formas. De tantas formas, que
na certa precisaria de várias laudas e ainda assim não
conseguiria. Porém, com a finalidade de afunilar a discussão
vou tratar apenas de quatro tendências, superficialmente
das três primeiras e entrando um pouco no mérito
estético de cada uma e por fim, um pouco mais profundamente
da quarta, que é a que realmente me interessa. Sempre
deixando claro, que toda classificação que se
preza, deixa de fora muita coisa e parte do pressuposto que
os exemplos citados são os mais representativos.
A primeira tendência é a que podemos chamar de
“Construtivista” é a que
tem como base o apuro à linguagem, a impessoalidade e
a desenfatização do subjetivismo. Esta tendência
é representada por poetas descendentes da estética
Mallarmaica e Poundiana. Seus representantes na maioria das
vezes são estudiosos e críticos e por isso há
uma certa facilidade na publicação de seus trabalhos,
já que estão inseridos no mercado editorial. Citando
alguns nomes que se destacam nesta tendência temos Augusto
e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, José Paulo
Paes, Antonio Fraga, Pedro Paulo de Senna Madureira, Carlito
Azevedo e Paulo Leminski, este último, transitando mais
livremente em outras tendências. O lado positivo desta
tendência é a estratégia poética
de negação aos excessos subjetivista, porém,
com emoção e técnica na construção
da linguagem, o que é o caso destes autores citados.
Já o lado negativo, é o narcisismo intelectual
do autor e a cumplicidade do leitor, que aqui e acolá
reconhece determinadas citações de autores badalados
como Joyce, Dante, Homero, Octavio Paz, Jorge Luis Borges, entre
outros e compactua (o leitor) com esse excesso de formalismo
que muitas vezes leva o poema à perda da emoção,
tornando-se poema de citação.
A segunda tendência é a “Subjetivista”
e tem como enfatização o “Eu lírico”.
Dentre os nomes mais conhecidos desta tendência temos
Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Vinicius
de Moraes e Affonso Romano de Sant’Anna. O lado positivo
desta tendência é que quando este trabalho é
bem feito, não se distancia do apuro estético
e consegue unir a carga emocional do autor à funcionalidade
da língua como coisa viva que o é. Já o
lado negativo, fica a cargo de poetas que declaram guerra ao
próprio umbigo e pensam que suas dores, amores, paixões
e sofrimentos são as dores do mundo e saem por aí
cometendo poemas numa pieguice tremenda e com um baita narcisismo
emocional e encontrando em alguns leitores a cumplicidade que
merecem. É muito comum encontrar esse tipo de poeta em
cadernos de poesias de iniciantes – infância poética.
Todavia, sabemos que é impossível fazer uma obra
de arte toda vez que se escreve, sendo necessário, porém,
que se tenha “leituras” e conseqüentemente
senso crítico na hora em que vai publicar um texto ou
mostrar um trabalho.
A terceira tendência é a que foi classificada na
década de 1970 por críticos como Heloísa
Buarque de Hollanda e Carlos Alberto Messeder Pereira, entre
muitos outros, como “Poesia marginal”
e que magistralmente o poeta e tradutor Paulo Henrique
Brito chamou de “Poesia vivencial”
em artigo no jornal Arte & Palavra. Essa
tendência caracteriza-se pela reação aos
excessos academicistas da poesia construtivista. Sua principal
forma é o verso livre e a renovação da
forma a cada poesia com base nas experiências imediatas
do poeta, se aproximando assim do ritmo e da fala coloquial,
tendo como precursor desta tendência os poetas modernistas
e entre eles Oswald de Andrade e Luis Aranha. Dos atuais agitadores
deste tipo de poesia, mas com qualidade, temos Leila Míccolis,
Tanussi Cardoso, Chacal, Ledusha, Simão Pessoa, Nicolas
Behr e Alice Ruiz. O lado negativo desta tendência e o
uso indiscriminado dessa não-forma e que muitos poetas
pensam ser de fácil uso, bastando a espontaneidade. Porém,
esquecem, esses poetas, que existe a inteligência crítica
e o conhecimento de algumas das outras formas, conseguindo assim
manter o equilíbrio quando for andar na corda bamba e
no fio do verso livre.
A quarta e última tendência eu chamarei provisoriamente
de “Canção” e classificarei
pela via-poundiana usando a denominação de uma
de suas categorias que é a melopéia,
aquela na qual as palavras estão impregnadas de uma propriedade
musical que orienta o seu significado, com base no som e no
ritmo, muito comum nos poetas provençais: Guilhem de
Peitieu (1071-1127), Bernart de Ventadorn (1150-1195), Marcabru
(1130-1150), Bertan de Born (1140-1210) e outras feras dessa
época que viriam a influenciar a nossa canção
popular. Diga-se de passagem, que a denominação
“canção” é
literária, tais como soneto, haicai, ode e elegia, entre
outras. Esta forma de poesia (genericamente falando), atingiu
uma amplitude tal que chegou aos nossos dias como o melhor meio
de divulgação dos poetas, se não o melhor,
pelo menos o mais eficiente hoje em dia. Como disse, terei que
segmentar um pouco o tipo de poeta a se comentado, descartando
assim compositores como Caetano Veloso e Chico Buarque, que
perfeitamente se encaixam como representantes de um tipo de
poeta que trazem consigo a herança dos provençais.
Contudo, pretendendo direcionar ainda mais o assunto, falarei
apenas de poetas-letristas, entendendo aqui como tal, aqueles
que lidam com a palavra e não (também) com harmonia
e construção melódica como é o caso
de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, este último,
sem sombra de dúvida, um dos maiores letristas, tanto
de suas músicas como nas de outros compositores. O que
quero tratar aqui é de poetas-letristas da nossa música
popular e que através dela, conseguem divulgar seu trabalho
para um público mais amplo, muito mais do que o público
restrito aos livros. Em um país em que se lê pouquíssimo,
ainda mais poesia, aliar a escrita poética à mídia
é muito importante. Para se ter uma idéia, a cidade
de Buenos Aires tem muito mais livrarias que em todo o Brasil,
talvez pela inexistência de uma política governamental
direcionada ao livro. São apenas três mil bibliotecas
públicas em todo o país de dimensões continentais.
O que existe, são esforços isolados como o do
Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro que na gestão
de José Maria de Souza Dantas criou alguns projetos,
que por fim definharam por falta de apoio municipal, estadual
ou federal. Tudo isso, somando e multiplicando, fez com que
os poetas procurassem formas de divulgação que
não passassem só pelo formato “livro”.
A nossa tradição de poetas atuantes na música
brasileira vem do século XVII com Gregório de
Matos Guerra. Este, já cantava seus versos acompanhando-se
de uma viola feita de cabaça fabrica por ele, segundo
Araripe Júnior, citado por José Ramos Tinhorão
no prefácio do livro MPB (Muita Poesia Brasileira) de
Leila Míccolis. No século seguinte apareceram
muitos outros poetas fazendo o mesmo uso do verso em música.
Até que no século XIX, no auge do Romantismo,
surgem as primeiras duplas de compositores como conhecemos hoje:
um músico e um poeta como letrista. Parcerias como Xisto
Bahia e Melo Moraes Filho (ascendente de Vinicius de Moraes).
O músico português Rafael Coelho e o poeta criador
do Romantismo Gonçalves de Magalhães. Vários
outros poetas deste mesmo século enveredaram pela música
popular: Catulo da Paixão Cearense, Laurindo Rabelo,
Vilela Tavares e Joaquim Manuel de Macedo. No século
XX, esse frisson pela letra da canção veio a desaguar
em Mário de Andrade (que na sua polivalência também
era músico), Manuel Bandeira (parceiro de Jaime Ovalle
e Villa-Lobos), Dora Vasconcelo, Dante Milano, Oreste Barbosa,
Otavio de Souza e Ferreira Gullar (quase todos parceiros de
Villa-Lobos) e no que mais se enfeitiçou pela carreira
de letrista: Vinícius de Moraes. Já há
algum tempo, a partir das décadas iniciais do século
XX, a questão da influência da mídia fonográfica
no trabalho dos poetas-letristas ficou mais acirrada e mais
clara. Com a notoriedade e reconhecimento através da
canção popular, o poeta-letrista ou como preferem
chamar “compositor-letrista”, tornou-se mais conhecido
do grande público. Fruto do trabalho feito nas letras
de música, o poeta teve também o interesse do
público direcionado para seus livros. Muitos desses livros,
além de poemas, trazem também letras de canções
com os diversos parceiros. Não querendo dizer que o suporte
“livro” para a poesia tornou-se obsoleto ou mesmo
ineficiente. Porém, fica bastante claro que a poesia
com o suporte musical e fazendo uso das diversas formas de divulgação
deste produto ganhou muito mais adeptos. Haja vista a quantidade
de poetas-letristas que somente conseguiram projeção
através da letra de música e/ou em muitos casos,
uma projeção muito maior à nível
popular como foi o caso de Vinícius de Moraes, que havia
publicado em 1933 (aos 19 anos) seu primeiro livro de poesias:
O caminho para a distância. Caso inverso aconteceu com
o poeta-letrista Paulo César Pinheiro, que após
anos e anos de trabalho de letra de música, publicou
seu primeiro livro aos 27 anos “Canto brasileiro”
em 1976. A título de curiosidade citarei apenas alguns
autores e alguns de seus livros: “Canto brasileiro”,
“Viola morena” e “Atabaques, violas e bambus”
de Paulo César Pinheiro; “Tropicalismo para principiantes”
e “Os últimos dias de Paupéria – Do
lado de dentro” (póstumo) de Torquato Neto; “Inquisitorial”
de José Carlos Capinam; “Punhos da serpente”,
“Palávora” e “O beijo da fera”
de Salgado Maranhão; “O surfista no dilúvio”
de Sergio Natureza; “Asas” e “Mundo delirante”
de Abel Silva; “Canção de Búzios”
de Ronaldo Bastos; “Poemas & canções”
de Ana Terra; “A palavra cerzida”, “Mar de
mineiro”, “Segunda classe” e “Beijo
na boca” de Cacaso; “Urucum X fumaça”,
“Pipa”, “Trincheira de espelhos” e “Poeta
vagabundo” de Xico Chaves; “Cemitério geral”,
“Casa de pássaros”, “Caminho do meio”
e “3X4” de Ivan Wrigg; “O gavião e
a serpente” de Murilo Antunes; “Na busca do Sete-estrelo”,
“Verão vagabundo”, “Piquenique em Xanandu”
e “Por mares nunca dantes” de Geraldo Carneiro;
“Motor” de João Carlos Pádua; “A
marca do Zorro” de Tite de Lemos; “O canto do homem
cotidiano” e “tapete do tempo” de Ildázio
Tavares; “Me segura que eu vou dar um troço”
de Wally Salomão; “Um cara bacana na 19ª”
de Aldir Blanc; e ainda diversos poetas como Hermínio
Bello de Carvalho, Chacal, Bernardo Vilhena, esses três
com vários livros publicados.
Alguns poetas enveredam por outros gêneros literários
ou mesmo vieram de determinados gêneros e navegaram na
canção popular: Sérgio Cabral (biografia);
Nei Lopes (O samba na realidade); Paulo Coelho (misticismo);
Abel Silva (romance “Afogados”, contos “Açougue
das almas); Oduvaldo Viana Filho (teatro); Guarniere (teatro);
Ruy Guerra (cinema); Luiz Galvão (memórias) e
Márcio Borges (memórias).
Há outros que pouco se sabe de seus livros, contudo,
seus nomes estão sempre atrelados a grande músicos-compositores.
Suas letras com tal envergadura literária suprem o nosso
afã de conhece-los em livros, nomes como Fernando Brant,
Márcio Borges, Vítor Martins, Paulo César
Feital, Ronaldo Monteiro de Souza, Lula Freire, Antônio
Cícero, Antônio Risério, Duda Machado, Fausto
Nilo, Fernando de Oliveira, Paulo Emílio, Climério
e Jorge Salomão, dentre muitos outros, quase todos com
livros publicados.
Há o caso de poetas consagrados que se deixaram levar
nas asas leves da canção popular, seja colocando
letra em música ou mesmo cedendo seus poemas para serem
musicados: Carlos Drummond de Andrade, Affonso Romano de Sant’Anna,
Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Ferreira Gullar.AS GERAÇÕES DE LETRISTASA título de curiosidade citarei alguns letristas que
compõem as diversas gerações, sendo as
mais recentes as que atuam entre os anos 1960 e 2005. É
claro que muitos letristas ficarão de fora, isto por
vários fatores: esquecimento, falta de conhecimento da
obra deles etc.1ª Geração: (1840/1910)Araújo Porto-Alegre, Casimiro de Abreu, Pedro de Alcântara,
Albuquerque Medeiros, Mauro de Almeida, Castro Alves, Machado
de Assis, Tomás Antonio Gonzaga, Álvares de Azevedo,
Arthur de Azevedo, Gonçalves Dias, Joaquim Manoel de
Macedo, Francisco Manuel da Silva, Francisco Paula de Brito,
Gonçalves de Magalhães, Laurindo Rabelo, Olavo
Bilac, Vilela Tavares, Leopoldo Fróes, Bastos Tigre,
Melo Moraes Filho e Catulo da Paixão Cearense.2ª Geração: (1910/1960)Goulart de Andrade, Guimarães Passos, Jair Amorim, Orestes
Barbosa, Hermes Fontes, Olegário Mariano, João
de Barro, Mário Lago, Grande Otelo, Mauro de Almeida,
David Nasser, Otavio de Souza, Dora Vasconcelos, Dante Milano,
Guilherme de Brito, Manuel Bandeira, Mário de Andrade
e Álvaro Moreira.3ª Geração: (1960/2005)Vinicius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, Mário Telles,
Glauber Rocha, Paulo Gracindo Júnior, Augusto de Campos,
Haroldo de Campos, Antônio Maria, Oduvaldo Viana Filho,
Guarnieri, Lula Freire, José Carlos Capinam, Torquato
Neto, Hermínio Bello de Carvalho, Waly Salomão,
Ronaldo Monteiro de Souza, Clóvis Mello, Ronaldo Bastos,
Ruy Guerra, Márcio Borges, Afonso Romano de Santana,
Ferreira Gullar, Carlos Drumonnd de Andrade, Paulinho Tapajós,
Fernando Brant, Patativa do Assaré, Nelson Motta, Paulo
César Pinheiro e Paulo Sérgio Valle.4ª Geração: (1970/2005)Murilo Antunes, Sergio Natureza, Cacaso, Abel Silva, Salgado
Maranhão, Aldir Blanc, Antônio Cícero, Rogério
Duarte, Antônio Risério, Ildásio Tavares,
Tite de Lemos, Sérgio Cabral, Paulo César Feital,
Jorge Salomão, Vitor Martins, Ziraldo, Ivan Wrigg, Xico
Chaves, Paulo Emilio, Luiz Cláudio Tolomei, Paulo Coelho,
Marília Trindade Barboza, Arthur de Oliveira, Nei Lopes,
Climério, José Jorge, Luiz Galvão, Duda
Machado, Délcio Carvalho, João Carlos Pádua,
Antonio Bivar, Geraldo Carneiro, Ana Terra, Sérgio Fonseca,
Marco Aurélio, Olívia Hime, Jorge Portugal, Geraldo
Amaral e Fausto Nilo.5ª Geração: (1980/2005)Bernardo Vilhena, Ronaldo Santos, Chacal, Paulo Leminski, Fred
Góes, Patrícia Travassos, Bráulio Tavares,
Dudu Falcão, Luiz Carlos Góes, Euclides Amaral,
Fernando de Oliveira, Francisco Bosco, Tavinho Paes, Flávio
Nascimento, Kico Amaral, Celso Borges, Cristina Saraiva, Rita
Altério, Silvia Sangirardi, Guilherme Godoy, Ledusha,
Bruno Levinson, Marcelo Dolabela, Cristina Latini, Arnaldo Antunes,
Pedro Landim, Cazuza, Mauro Santa Cecília, Marcelo Paes,
Fernando Pires Alves, Célio Khouri, Elisa Lucinda, Marco
Sacramento, R. R. Juca, Mauro Mendes, Dulce Quental e Alice
Ruiz. Certa vez, João Cabral de Mello Neto disse que Vinícius
de Moraes tinha negado a poesia quando começou a fazer
letra para música. João Cabral estava quadradamente
enganado. Vinícius de Moraes apenas mudou de forma a
sua poesia e não há como negar a contribuição
dele para o nosso cancioneiro popular, assim como a de todos
esses poetas que enfeitam a nossa música popular com
seus versos e sendo assim, aprimoram-se também em uma
escola tão rica em forma e conteúdo.
Para finalizar cito Augusto de Campos e um estudante japonês
via-poundiana: “Independente de quaisquer tendências
ou ismos, a poesia é uma família dispersa de náufragos
bracejando no tempo e no espaço e consiste em essências
e medulas”.
Euclides Amaral
(poeta e letrista - euclidesamaral@superig.com.br )
10.02.2005