Cultura
Centauros da poesia

No meado da década de 1970 a poesia já fervilhava em Nova lguaçu. O grupo Calabouço, formado por poetas e artistas em geral, agitava onde houvesse espaço. A Revista Equipe, pilotada pelo gráfico Jocenir Ribeiro, dono da gráfica e Editora Copy & Arte, assumia uma nova forma abrindo espaço para a poesia e artistas locais. Com o decorrer dos anos, novos grupos e novas publicações foram surgindo e desaparecendo, como o grupo Tangerina integrado por Moduan, Thadeu Ferreira, Luiz de Campos, entre outros, a Revista Amplitude (do Sesc), Revista Nosso Jeito (tendo como patrono o poeta Antônio Fraga), Jornal Teia, grupo Caco de Vidro (Lírian, Heitor Negrinho, Djair, J. A. Lima e Moduan). A poesia continuava a dar seus mirabolantes vôos pelos bares (Casa da Pantera), praças e outras estações orbitais. Poetas de outras galáxias apareciam na cidade para dar uma canja e tomar cerveja, entre os muitos poetas, destacamos Flávio Nascimento e sua Caixinha de Cinema, Samaral e seus poemas sonoros, Zé Cordeiro e seus pop's-repentes, Mano Mello e suas personas-desbocadas, grupo Panela de Pressão e seus poetas-letristas (Jênesis Genúncio, Jorge de Almeida, Sidney Cruz, Lúcio Celso Pinheiro e Euclides Amaral), grupo Passa na Praça Que A Poesia Te Abraça (Douglas Carrara, João Batista etc.), só para citar alguns, já que a lista seria maior que a Constelação de Andrômeda.

As coletâneas começaram a surgir na década de 1980 com “Dez Autores Iguaçuanos”, publicada pela Copy & Arte, de Jocenir, misturando gente nova com pterodrátikos-efervecidos de tempos imemoriais, entre eles, Laís Sá do Amaral, Cirino Neto, Moduan, Luiz Coelho e outros poetas de plantão e ainda a “Antologia de Poetas da Baixada Fluminense” (26 Poetas Baixadenses) lançada por Gladstone Accioly e Cristina Siqueira, com o apoio da Rioarte.

Na década de 1990, a agitação passou pelo Daniel's Bar, nos “Encontros com a Poesia”, na Casa de Cultura e na Praça José Hipólito, muitas vezes com o apoio da Prefeitura de Nova Iguaçu. Por essa época, surgiu ainda o zine “Desmaio Públiko” reunindo poetas novos e outros da era glacial, editado pela chancela Vício & Verso, ambos capitaneados por Cezar Ray e Eud Pestana.

A Editora Vício & Verso, de cunho e contrato social mirabolante, além de publicar o Desmaio Públiko (que chegou ao número centoebrown), lançou três livros: “Poesia de Final de Milênio”, de Moduan Mattos, “Adnuntun”, de Marlos Degamini, e “Moduan x Lírian Tabosa”, autoria de e ambos.

Em 1996 Moduan Mattos publicou “Vermelho - Um século de poesia”, contando um pouco da trajetória da rapaziada que gravitava no Desmaio Público, que nessa altura do campeonato, já era visto e assumido como “Grupo de poesia”, mesmo que muita gente nem se desse conta disso. Era comum ouvir nos bares que “a rapaziada do Desmaio Públiko vai pintar hoje e vamos ter poesia a balde”. O livro de Moduan Mattos contou um pouco da estória dos lançamentos do zine, encontros, festas, raves-poétikas, acampamentos, convites aceitos pra outros lançamentos, festas de aniversários, e tudo mais que tivesse bebida e poesia, enfim... registrou um pouco dessa trajetória nervosa dos poetas novaiguaçuanos e dos inclusos, pendurados e atrelados como Lobo (de Niterói) e o casal Eud Pestana e Ana Cajueiro (da Penha). No ano seguinte, Moduan, batedor-da-poesia, saiu na frente conseguindo recursos financeiros para lançar “Anos 90 - Poetas na Baixada - Coletânea do fanzine Desmaio Públiko”, que milagrosamente resumiu boa parte dos poemas publicas nos 100 números inicias do zine.

Em 2003, alguns poetas como Cézar Ray, Sil, Lírian Tabosa, Eud Pestana e Moduan Matos e outros centauros da poesia, galoparam no evento “Ecos da Baixada”, no Sesc de Nova Iguaçu e ainda deram piruetas poétikas por vários points de poesia no Estado do Rio de Janeiro, sempre pulverizando versos, infernizando poesia e descabelando performances.

O zine “Desmaio Pübliko” funcionou e funciona como catalisador, e em torno dele foram surgindo novos grupos como o Decúbito Dorsal (Júnior, Eloy e Cézar), Regojito Poétiko (Marlos & Monir) e outros que quem viver verá. Entre os anos de 2003 e 2004, o casal de poetas atuantes, Moduan Mattos e Sil, fundou o bar “Raízes”, estação orbital da discussão e pancadaria intelectual em prol da poesia e outras petecas-diáfanas.

No ano de 2005, uma outra ala do Desmaio Públiko, desta vez a ala mais cheirosa, apresentou-se no evento de inauguração do Espaço Cultural Sylvio Monteiro (antiga Casa da Cultura), no Dia da Mulher. O evento, realizado pela Secretaria de Cultura da Cidade de Nova Iguaçu, com o a poio da FENIG e Coordenadoria Especial de Políticas para a Mulher, apresentou a s poetas do Desmaio Públiko Feminino: Sil, Lirian Tabosa, Ivone Landim, Josi Lozada, Kátia Vidal e Ana Cajueiro.

Mas o que une mesmo toda essa galera não é só a poesia, é, além de tudo, a amizade, como sacramentou o poeta Eud Pestana no verso “ A amizade é uma segunda pele ”.

Eu tive o prazer de estar presente em várias dessas fases e agitações e é por isso que assino

lá em cima
aqui do lado (euclides amaral)
e
cá embaixo.

Euclides Amaral
(é poeta e amigo de plantão da rapaziada do Desmaio Públiko)

10.02.2005