Cultura
Olho vivo, faro fino
CD As Tribos,
de Rubens Cardoso (Selo Arara produções)
Rubens Cardoso, baiano de Jequié, lançou em 1996 o CD “Dança das cores” no
 
qual desfiou parcerias com os músicos Joelson Lima, Henrique Silva e Moisés Costa, além de outras com os letristas Olten, Euclides Amaral e Sergio Natureza, contando também com a participação da cantora Ceiça. Entre 1999 e 2005 participou como compositor, cantor, arranjador e multiinstrumentista das coletâneas “Conexão Carioca” (1, 2 e 3), “Quem São Os Novos da MPB?” e “Balaio Atemporal”. Agora nos brinda com este segundo disco solo, no qual abre o leque de novos parceiros e nos traz a confraternização habitual de seus trabalhos, sempre contando instrumentistas e novas cantoras em diversas participações especiais.

“Nego do gagabirá” (Rubens Cardoso). Uma homenagem a João Bosco, uma de suas influências, além de Luiz Gonzaga e Chico Buarque. A faixa traz a levada de seu violão, zeloso na harmonia, e o dueto com o trombone de Sylvio Barbosa, com quem trabalha na noite carioca, no reduto da Lapa e adjacências.

“Choro de passarinho” (Renato Piau, Rubens Cardoso e Euclides Amaral). Faixa na qual divide comigo a letra deste choro, gravado anteriormente instrumental pelo Piau. Depois de ganhar a nossa letra já está na quarta gravação, desta vez apoiada pelo sax de Marcelo Moreno e o piano de Flávio Paiva.

“Cantiga de cego” (Bóris Garay e Rubens Cardoso). Outra vez o letrista toma conta nesta bela composição do parceiro violonista e designer Bóris Garay, autor da capa e tudo mais quanto é visual do CD. A voz de Anna Pessoa borda e tece uma manta aconchegante pros ouvidos mais exigentes.

“Xingu” (Rubens Cardoso e Olten). Com o poeta e letrista Olten compôs há muito tempo esta pequena obra prima Jobiniana. Outra vez o arranjador ressalta nesta segunda gravação da música, a primeira foi da cantora Dioni Miranda e já era perfeito o arranjo.

“Aquarela de sonhos” (Moisés Costa e Jênesis Genúncio). A guitarra de Berto Luze abrilhanta a melodia do músico Moisés Costa e a voz de Rubens faz a releitura da letra do poeta Jênesis Genúncio.

“Gabriela” (Rubens Cardoso). Até quem não conhece a primogênita ficará emocionado com esta música, imagina a gente que priva das suas meninices-infantis. É de ouvir pra crer.

“Carta ao Dori” (Rubens Cardoso e Paulo Renato). Outro de seus espelhos, Dori Caymmi, está presente nesta melodia, daí o título. O músico e letrista Paulo Renato foi feliz nos arremessos poéticos e Rubens reviu o front das palavras dando um toque mágico. As cantoras Andréa Ferr, Anna Pessoa e Ceiça arrematam a bainha dos versos de ambos.

“Fábula” (Rubens Cardoso). Qualquer letrista ficaria feliz em assinar os versos desta composição, falo por mim e o Salgado Maranhão, entre outros, que já ouviram estas margens plácidas poéticas. O trombone do comparsa Sylvio Barbosa passa o recibo.

“Por um triz” (Bóris Garay, Rubens Cardoso, Olten e Euclides Amaral) Quando você pensa que o arranjo de Rubens Cardoso pra interpretação de Anna Pessoa foi o definitivo pra esta música em gravação anterior... ledo engano... ele faz uma releitura e nos surpreende mais uma vez com esse arranjo bem diferente.

“Cravo e canela” (Rubens Cardoso). A cantora Thaís Motta interpreta magistralmente essa homenagem à cidade de Salvador, provando mais uma vez que baiano nunca esquece a raiz que alimenta os bons frutos, apesar de radicado no Rio há tanto tempo. Notem aí um pouco de Joyce na harmonia e na melodia, outra influência benéfica de quem está antenado com o melhor da MPB.

“Lua comparsa” (Marko Andrade, Rubens Cardoso e Euclides Amaral). O privilégio de dividir esta letra com o Rubens e ainda por cima escutar essa segunda gravação com arranjo camaleônico seu (totalmente diferente do primeiro feito pra Ceiça) eu trago na minha algibeira de sentimentos bons. Mais uma vez o trombone do nosso amigo Sylvio é de arrepiar! Ainda tem o poema que tive o prazer de declamar.

“As tribos” (Bóris Garay e Rubens Cardoso). O sinônimo de confraternização resplandece nesta faixa. Não caberiam todos os amigos, mas boa parte deles cá está! E não poderia faltar a Sílvia Barbosa, mãe da Gabi e do Arthur, atestando que amor, amizade e admiração caminham juntos.

Esse é um disco do letrista, do multiinstrumentista, do cantor, do compositor-melodista, do arranjador, do aglutinador e amigo complacente de todo nós, sempre ávido as novas possibilidades musicais e atento aos novos amigos e parceiros. Por isso, este disco é mais uma confraternização do Rubens Cardoso, tão normal em seu dia a dia de ser humano.

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Euclides Amaral
(poeta e letrista conexaocarioca@bol.com.br )

10.12.2005
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