Apesar de ser o titular desta coluna e escrever crítica sobre discos,
desta vez eu optei por usar o próprio release que vem encartado no CD,
pois o Ricardo Cravo Albin foi tão eficaz (como sempre) que não deixou
nem margem pra gente fazer outros comentários. Faço das palavras dele
propriedade minha, até porque, tenho direito ao uso capeão, por mais
de cinco anos de amizade que nós temos.
Com vocês RICARDO CRAVO ALBIN falando por todos do disco e por mim.
BALAIO ATEMPORAL
(Gravadora Guitarra Brasileira)
Neste disco a gravadora Guitarra Brasileira, fundada pelo guitarrista
Renato Piau, procurou unir diversos timbres sonoros do país através
de artistas baianos, cariocas, capixabas, piauienses, paulistas,
pernambucanos, fluminenses, sergipanos e cearenses. Tudo isso para
mostrar um sincero panorama da MPB atual.
1. "And I love her" - Um clássico de Lennon e MacCartney no bandolim
magistral do baiano ARMANDINHO. Que conta com o arranjo luxuoso, além
dos violões de RENATO PIAU e do baiano PERINHO SANTANA.
2. "As aventuras de um certo Capitão Blues" - FABIO ROLÓN apareceu
inicialmente nos festivais da década de 1970, nos quais ganhou dois "Galo de Ouro" como intérprete de "Encouraçado", de Sueli Costa e
Tite de Lemos. O cantor regrava esta balada-soul, de sua autoria, com a
exuberância de um intérprete cuja voz permanece - preste atenção -
como um cristal mágico.
3. "Vou correndo te buscar" - A voz e a interpretação do carioca TIM
MAIA dispensam comentários nesta música de Renato Piau com letra do
pernambucano Arnaud Rodrigues. Tim registrou este fonograma em 1979. É
pura emoção, para saudositas ou não.
4. "Me beija" - Canção tríplice coroada, composta por RENATO PIAU,
TUREKO e LUIZ MELODIA. O negro-gato carioca interpreta com voz
aveludada, esbanjando leveza e elegância. Aliás, não é de hoje que
Melodia é o titular da voz mais bonita do Brasil.
5. "Na divisa" - FERNANDA MORAIS, que integrando o Grupo Elemento,
participou da coletânea "Carcarás da cidade - Um tributo a João do
Vale", produzida pela Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu na gestão
de Nélson Freitas. Agora Fernanda aparece em solo na quase suntuosa
canção de FABIANO DE SOUZA.
6. "Reciclando o verbo" - Uma melodia excitante, composta e executada
com a maestria do violão do piauiense RENATO PIAU. A participação
especial - ou melhor, especialíssima - é do poeta pantaneiro MANOEL
DE BARROS, que recita o poema "Catre-velho". De chorar.
7. "Meu pobre blues" - O capixaba SÉRGIO SAMPAIO fez uma homenagem ao
conterrâneo ROBERTO CARLOS e RENATO PIAU regravou com manemolência,
esse que é um dos primeiros sucessos de Zizi Possi.
8. "Talismã" - Um verdadeiro amuleto. Essa canção foi composta pelo
baiano ALEXANDRE VÍDERO. Aqui na interpretação da cantora, também
baiana, SHALIN WAY.
9. "Celebrando o amor" - JACKS WU, chinês nascido em Shangai e com
carreira sedimentada em São Paulo, nos celebra aqui a vida e o amor
dos tempos da Jovem Guarda com uma composição de sua autoria.
10. "Tudo uma coisa só" - LÉO GATTI, tecladista e cantor carioca,
esbanja voz firme e interpretação singular nesta música de sua
autoria.
11. "Choro de passarinho" - gravada inicialmente instrumental com o nome
de "Choro alegre", mudou de nome depois de ganhar letra do meu fraterno
amigo, o pesquisador carioca EUCLIDES AMARAL, chegando a esta quarta
gravação do arranjador e multiinstrumentista baiano RUBENS CARDOSO,
também co-autor da letra.
12. "Palavra de honra" - Um fio de bigode vale a assinatura da dupla
CHIKO & ROGÉRIO nesta composição. Conhecida em festivais de jazz no
Estados Unidos, principalmente em New Orleans. A dupla aos poucos galga
espaço também no Brasil, tendo como quartel general o estado de
Sergipe. Quem diria, hein? que Aracaju já exporta MPB...
13. "Calango" - Mistura eletrônica do percussionista JAKARÉ, autor e
intérprete. Aliás, botem olho neste super-crocodilo da MPB. Este
arrepia...
14. "Mr. Funk" - Destaque pra extraordinária batida criada pelo
compositor e intérprete
ALEX HOLANDA, unindo à modernidade o sabor do velho e bom Ceará.
Vale a pena acompanhar este belo (e raro) fragmento da MPB.
Aqui não apenas se garimpou algumas jóias, que - não fosse este
esforço - permaneceriam desconhecidas para sempre. Também se apontam
caminho, veredas e sugestões.
Ricardo Cravo Albin
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Euclides Amaral
(poeta e letrista conexaocarioca@bol.com.br )
10.12.2005
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