Cultura
O movimento funk

INTRODUÇÃO
DADOS HISTÓRICOS
PRINCIPAIS DESDOBRAMENTOS MUSICAIS DO FUNK
O FUNK COMO EXPRESSÃO DE UMA CULTURA PERIFÉRICA
A INVISIBILIDADE DOS FUNKEIROS, RAPERS, MARGINAIS E FAVELADOS
O FUNK PROIBIDÃO
UM PARADOXO
O FUNK TAMBÉM É FASHION E A MÍDIA SE APROVEITA DISSO
PROGRAMAS DE TV E RÁDIO SOBRE O FUNK
A CRIMINALIZAÇÃO DO FUNK NA MÍDIA
SOBRE O SUCESSO DO FUNK
O FUNK VIRA DOCUMENTÁRIO
O FUNK TÁ NA MODA E GERA MODA
DE GÊNERO A MOVIMENTO
FECHAMENTO
BIBLIOGRAFIA
SITES CONSULTADOS
GLOSSÁRIO


INTRODUÇÃO
:

O gênero musical ‘funk’ ao longo dos anos vem assumindo características de ‘movimento’. Isto porque, apesar não ter tantos desdobramento como o ‘Movimento hip hop’, o funk detém alguns desdobramentos interessantes que já o vem caracterizando como ‘Movimento’.
Os desdobramentos estão mais à nível de vestimentas e posições ideológicas definidas, principalmente da ala feminina com relação à sexualidade. Contudo, aprofundaremos este item de mudança de gênero para movimento, mais tarde. Primeiramente daremos uma olhada geral no que é o funk em vários aspectos.

DADOS HISTÓRICOS:

No início da década de 1970 o soul-music fazia sucesso no Brasil. Os principais artistas por aqui conhecidos eram James Brown e sua banda JB’S, Aretha Franklin, Ray Charles, Marvin Gaye, Stevie Wonder, Jackson Five, grupos vocais como Blue Magic, entre outros, a maioria, artistas da gravadora Monthown, fundada na década de 1960.

Alguns artistas brasileiros que haviam estado na América do Norte e outros, aqui mesmo do Brasil, logo assimilaram esta tendência. Entre os mais conhecidos e iniciantes estavam Dom Salvador e Grupo Abolição, Tim Maia, Carlos Dafé, Sandra de Sá, Tony Tornado, Gérson King Combo, Hildon, Lady Zú, Cassiano e Banda Black Rio. Estes artistas, entre outros desta época, faziam apresentações nos bailes suburbanos e muitos deles trabalhavam com ‘playback’ com apoio das equipes de som como a Soul Grand Prix (de Paulão), Monsieur Lima, Big Boy, A Cova, Cash Box e Furacão 2000 (de Marlboro, depois conhecido como DJ Marlboro).

No início da década de 1980 a sonoridade mudou para o Miami bass, com as batidas graves acentuadas, daí o título de um dos principais desdobramentos sonoros do funk. Este modelo de batida fora usado anteriormente por James Brown em 1965 na composição “Papa’s got a brand new bag”, mais ou menos “Papai conseguiu algo novo e excitante”, no qual a sessão rítmica do baixo era sincopada no primeiro compasso (backbeat) (4), criando o funk americano, também sinônimo de soul-music.

Apesar de o nome ser o mesmo, o funk na acepção antiga (décadas de 1970/80, no Brasil e nos E.U.A) não tem muito a ver com as levadas e as letras atuais do funk-brasileiro. O antigo era mais pesado em instrumentação com naipes de sopro e vocais afinadíssimos, o que não encontramos nos chamados funks atuais, havendo até uma certa proximidade, mas não chega a ser a mesma música, inclusive há quem defenda que não deveria ter este nome. De qualquer maneira, o funk brasileiro como conhecemos hoje e diferente do que conhecemos na acepção antiga da primeira geração citada, tanto em ritmo, quanto em posicionamento ideológico, sendo a primeira geração engajada no conceito de negritude e com o ritmo mais parecido com o soul-music (Tim Maia, Carlos Dafé, Sandra de Sá etc) e a segunda geração (Tati Quebra-Barraco, Bonde do Tigrão, Bonde do Faz Gostoso etc) mais solta e com valores mais dispersos, quase sempre ligados a posicionamentos de relação entre mulher e homem, além do ritmo estar mais pro charm, discoteque e outros gêneros. Um texto sobre esta segunda geração, de nome “O declínio do efeito cidade partida”(5), de Heloísa Buarque de Hollanda, é bem esclarecedor em alguns aspectos:

“No Rio de Janeiro, esse fenômeno apresenta certas características próprias. Tomo, como exemplo, o funk, considerado uma manifestação cultural estritamente carioca. Reza a história que o funk carioca surgiu quando foi descoberta a possibilidade de usar a bateria eletrônica baseada numa batida funk de Miami, e deitar por cima a fala das gangues, a fala do morro. A maioria plena de suas letras fala de dançar, pular, transar, zoar. Isto é, desde seus primórdios o funk no Rio de Janeiro gera a festa”.

Sobre a questão do funk e o sexo, a cineasta Denise Garcia, autora do documentário “Sou feia, mas tô na moda”, finalizado em setembro de 2004, também declarou:

“Acredito que o fato do funk falar de sexo sem romance é só o primeiro estágio, podem acontecer coisas muito mais revolucionárias depois de uma instigação como esta. As cachorras ainda são alvos de muito preconceito, porque as pessoas não entendem que aquilo é uma atitude e deixam de respeita-las. A mudança é lenta”.

PRINCIPAIS DESDOBRAMENTOS MUSICAIS DO FUNK: (Início)

Miami Bass ou Batidão,
Rap Melo,
Montagem,
Charm,
Melody,
Mid back,
Rasteiro
Proibidão

O compositor e pianista João Roberto Kelly (um dos mais conceituados criadores de marchinhas no Brasil) percebeu aspectos da marchinha em vários raps ou funk-melody.
Veja um trecho da música da dupla Cidinho & Doca de título ‘Rap da felicidade’

“Eu só quero é ser feliz/andar tranqüilamente na favela onde eu nasci (ahn)”.

Quem conhece a melodia percebe logo os elementos de marchinha aos quais João Roberto Kelly se referiu. O que parece paradoxal é que as letras das marchinhas antigas versavam sobre um erotismo menos velado e as atuais uma coisa mais escrachada. A questão é, se melodicamente a marchinha está presente em alguns casos, em termos de letra temos aí um antagonismo. Alguns destes artistas como a dupla Claudinho & Bochecha fizeram uso deste gênero musical com elementos da marchinha, talvez inconscientemente.

Quanto à questão do escracho e do erotismo no funk, há quem defenda que ele veio pra amenizar a violência dos bailes-funks.

Se por um lado amenizou, por outro lado, o erotismo criou alguns problemas. Há o relato de um caso de uma menina de 14 anos que afirmava ter engravidado e contraído AIDS em um baile funk, no Rio de Janeiro. Contudo, não foi nada constatado pelas autoridades competentes, a DPCA (Delegacia da Criança e do Adolescente) e o Juiz da Vara da Infância e Juventude, Siro Darlan, que não deixaria este fato passar despercebido por sua competência mais que comprovada. Em contrapartida, há relatos de pessoas de idade que freqüentam o baile funk e não o acha perigoso. Exemplo disso é Dona Neuza da Silva, de 70 anos, carinhosamente chamada de Vovó do Funk (6).

A questão aí não é se o funk é ou não violento e sim, quem o faz violento através da divulgação, ou a quem interessa a exposição da violência, tornando-a argumento e transformando-a em IBOPE ou chamariz para venda de jornais.

A criminalização ou a glamouralização dos bailes funks, depende muito do mídia, do meio usado – a mídia impressa (revista ou jornal) ou eletrônica (rádio, TV ou internet), do próprio jornalista e da linha editorial do jornal e/ou revista, emissora de rádio ou TV.

O funk carioca é denominado pelo termo “Bundalelê”, talvez por sua vocação a assuntos ligados as coisas amenas. Quem cunhou esta designação foram os funkeiros paulistas, que apesar da batida melódica, fazem uso de um discurso mais engajado. Não sabemos quem cunhou o vocábulo “Bundalelê”, porém, pode ser que tenha se originado como uma variante ou corruptela de “Papailelê”, termo também usado para pândega, brincadeira, sacanagem e outras coisas correlatas. Este termo pode se encontrado em um clássico da nossa literatura: “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, publicado em 1855. Autor de obra humorística que focalizava a classe pobre de sua época, Manuel Antônio de Almeida, às vezes usava personagens picarescos, com os quais ressaltava os costumes e o linguajar popular(7). O termo foi usado em uma passagem na qual o personagem principal, Leonardo e um grupo de amigos, faziam certas gaiatices sobre a possível morte do temido delegado Major Vidigal. Gaiatices estas com danças e quadrinhas debochadas e obscenas. Portanto, “Bundalelê” e “Papailelê” são sinônimos de brincadeiras musicais não muito levadas a sério. Termo empregado com essa função por muitos funkeiros paulistas.

O FUNK COMO EXPRESSÃO DE UMA CULTURA PERIFÉRICA: (Início)

Como disse, existem dois tipos básicos de funk:

O funk na acepção antiga, com influência do soul-music americano, principalmente de James Brown e Marvin Gaye e o funk-melody que nos deteremos a analisar em suas duas principais vertentes, o Proibidão (de cunho social, engajado e doutrinário) e o erótico, conhecido como ‘Funk sensual’ que versa sobre sexo, transa etc, como vimos em trecho de artigo de Heloísa Buarque de Hollanda.

Denominado como Funk-Miami (por sua influência da música feita nesta cidade americana, onde predomina a influência latina), tem como base o ritmo e não está ligado ao hip hop, isto porquê, usa como base a bateria eletrônica e samples de músicas do soul music, discoteque, marchinhas etc. Também conhecido como Batidão, é mais propagado na periferia do Rio de Janeiro.

O funk erótico tem vários expoentes, entre eles Tati Quebra-Barraco, Bonde do Faz Gostoso, Bonde do Tigrão, As Tchutchucas, Vanessinha Picachu, só para citar alguns dos mais importantes.

O funk, de produção fácil, tendo em vista que os funkeiros cantam em uma bass rítmica basicamente em cima do techno, fez com que fosse muito difundido, principalmente nas camadas mais pobres. Qualquer estúdio barato reunia condições tecnológicas de produzir um disco de funk, bastava samplear algumas batidas e colocar a voz em cima, mantendo um discurso mais popular, usando o erótico como base e chamariz, isto, sempre falando de casos amorosos, mais pelo lado sexual, do que pelo lado espiritual, atraindo a atenção dos mais jovens com seus hormônios e testosterona à flor da pele.

Com este tipo de produção de baixo custo, artistas da comunidade passaram a gravar com muito mais facilidade e freqüência. Criou-se então uma geração eletrônica, pois em cima de uma base rítmica o artista falava o que queria, geralmente fora do tom. Mais tarde foram incorporados outros grooves tanto nacionais como internacionais, aproveitando os loops das canções. O mais comum hoje em dia, em vários estados da federação, é o uso de ritmos regionais como maracatu, macumba, candomblé, marchinha e samba, só pra citar alguns.

“Também somos, sem medo, uma noção particular de um Brasil rejeitado, de um Brasil periférico, mas que construiu um olhar dinâmico de si mesmo, cumulando conhecimento e erguendo novas estruturas. Somos sim, a transmutação evolutiva da alma Afro-Tupi que se espalha por muitos cantos invisíveis deste país”(8).

O texto faz referência à produção cultural periférica dos subúrbios, dos morros da Zona Sul e ainda dos bairros da Zona Oeste do Rio de Janeiro, a chamada música-invisível, aquela sem mídia, sem gravadora e com poucos recursos de produção, mas que se mantém, principalmente por expor uma realidade imediata, comunitária e dos alijados do processo mercadológico.

A INVISIBILIDADE DOS FUNKEIROS, RAPERS, MARGINAIS E FAVELADOS: (Início)

Existem várias formas de invisibilidade: social, econômica, racial, política, sexual, etária, de classes, entre outras, de acordo com Ralph Ellison em seu livro “Invisible Man”(9) e com certeza, o funk, em sua acepção musical é refém de um tipo de invisibilidade, a musical, como disse, a de música-invisível. Estando a invisibilidade relacionada intimamente com a discriminação, gera fatos como o acontecido com a funkeira Mc Tati Quebra-Barraco em 2004. A funkeira foi convidada a participar do "Festival Ladyfest", em Stuttgart, na Alemanha, que queria a artista feminina como representante da cultura brasileira. Além do festival, a cantora apresentou-se também em uma festa para convidados no Palácio da República, em Berlim e ainda fez shows em Berlim, Zurique e Amsterdã. A passagem, paga pelo Ministério da Cultura, gerou polêmica em vários jornais no Brasil, chegando o Jornal O Globo On-line a criar a pergunta: "funk é cultura?". Em algumas horas mais de 500 pessoas responderam a pergunta:

"É a voz da marginalidade ganhando espaço nas brechas que a própria sociedade abre", disse o leitor José Nilson de Mello.

"É uma nova cultura que a classe dos subalternos e sufocados da socidade moderna criou para divulgar a sua existencia", respondeu a leitora Geisel Carvalho Rabelo.

Como sempre, parte da sociedade caiu de pau neste tanto na MC quanto no fato do governo ter patrocinado a viagem. Até a própria classe artística ficou dividida com relação ao fato. Isto nos faz lembrar a viagem dos Oito Batutas à mesma Europa em 1922 (rebatizado por Os Batutas) (10), também muito criticada por ser um ‘bando de negros’. Não vejo muita diferença no tratamento de ambos os casos pelos jornais, a categoria e a própria sociedade como um todo. Mais uma prova que mesmo passado tanto tempo, a discriminação racial e de classes continua com vento em popa. Segundo Roberto DaMatta, pelo fato de ser variável, o preconceito brasileiro tem uma enorme invisibilidade. Daí a nossa crença que não temos preconceito racial, mas social, o que tecnicamente, é a mesma coisa. Desenvolvemos aqui no Brasil um novo tipo de preconceito: “o preconceito de ter preconceito” segundo Florestan Fernandes.

O FUNK PROIBIDÃO: (Início)

Denominado PROIBIDÃO, este tipo de funk trata de assuntos ligados à marginalidade (como nomes de morros, chefes de tráfico, gente da comunidade que foi morta por policiais etc), causando assim uma perseguição a seus compositores. Os rappers do funk-proibidão geralmente usam toucas ninjas com as quais escondem o rosto e nunca assinam as composições, mesmo que toda a comunidade saiba até que as compôs.

Nesta categoria de funk proibidão estão também composições que exaltam as façanhas de determinadas facções do crime, como Comando Vermelho, Terceiro Comando e ADA (Amigos dos Amigos), todos do Rio de Janeiro e ainda o PCC (Primeiro Comando da Capital), da cidade de São Paulo. Vale lembrar que algumas destas composições são cantadas basicamente por pessoas ligadas ao tráfico e não pela comunidade. Isto porque, com a alternância do poder nas comunidades, quem quer que seja que tenha apoiado a facção criminosa que perdeu o poder está fadado à morte. Por isso, dizer que a comunidade canta determinadas composições não é de todo verdade. Este fato nos remete à questão da invisibilidade social, tanto de quem sofre este tipo de violência, quanto de quem a impõe.

Quanto a essa questão, remeto a um texto de Luiz Eduardo Soares (Assessor especial da Prefeitura de Porto Alegre) em “A Segurança Pública como Questão das Esquerdas” no Fórum Social Mundial, em 2001(11):

“Eles são invisíveis, socialmente invisíveis. O recurso que encontram para conquistar sua densidade ontológica, para impor sua presença, para recuperar a visibilidade, é o medo. Os meninos impõem o medo para alcançar o reconhecimento de sua presença, para readquirir visibilidade, identidade interativa na dialética dos encontros humanos... O terror a que está submetida a população pobre das favelas e a invisibilidade social e política de seu sofrimento coletivo. A nova invisibilidade só é suspensa por seus efeitos violentos sobre a cidade: a bala perdida, essa loteria de tragédia”.

O outro lado do funk proibidão é que ele também é porta-voz de parte da comunidade. Aquela parte que sofre das mazelas das favelas de qualquer cidade grande do país.

MC Mr. Castra é considerado um dos expoentes do "Funk Proibidão" (sub-gênero que fala da violência, tráfico de drogas e é pouco divulgado fora das favelas), sendo considerado adversário do sub-gênero "Funk sensual". Várias de suas composições foram incluídas nas coletâneas piratas "Proibidão do rap", por suas músicas enaltecerem facções criminosas do Rio de Janeiro. Participou da coletânea "Proibidão liberado", no qual interpretou as faixas "O lucro parte II" e "Aba roedor", em parceria com Beto da Caixa.

Entre suas composições mais divulgadas estão "Cachorro", referindo-se à polícia militar (PM) na qual relata em um trecho da letra:

"Cachorro/Se quer ganhar um dindin/Vende o X-9 pra mim/O patrão tava preso, mas mandou avisar/que a sua sentença nós vamos executar/É com bala de HK".

Por causa destes versos foi processado pela PM carioca por apologia ao crime. Para se defender alegou:

"O crime faz parte da cultura da favela. Não sou cúmplice do crime, sou cúmplice da favela. Não estou fazendo apologia, estou é relatando uma realidade".

Suas composições são incluídas na série de CDs piratas "Proibidão do rap", ao lado de músicas que enaltecem facções criminosas do Rio de Janeiro. Sobre essas gravações, certa vez declarou em entrevista ao Jornal do Brasil:

"Aquilo não era nem pra ser gravado e comercializado. Simplesmente vamos aos bailes, às rádios e cantamos com a rapaziada".

Em 30 de dezembro de 2002 a PM carioca apreendeu mais um lote de CDs piratas da série "Proibidão do rap", disco no qual constavam algumas composições de sua autoria. Versos como "Não corre/não treme/mete bala no PM" são comuns nestes discos.

Sobre os bailes-funks e a violência deles, principalmente dentro das favelas, tem-se notícia que muitos dos bailes são organizados pela marginalidade, no qual o principal fim é a venda de drogas. Nestes bailes são cantados vários tipos de funks e às vezes acabam em morte. Caso acontecido no final de novembro de 2004 na favela da Chatuba, no bairro Vila Cruzeiro, pertencente ao Complexo do Alemão, quando uma facção criminosa ordenou que parasse o baile funk (não organizado ou consentido por ela). Como não o fizeram, os marginais disparam em direção aos participantes e não satisfeitos atiram granadas ferindo 38 pessoas e matando uma. Existe outra versão da mesma história que alega que neste mesmo baile havia a infiltração de policiais. De qualquer maneira, o baile acabou com mortos e feridos. Como as mortes são comuns em favela, principalmente em se tratando de baile funk, mais uma vez
remeto à invisibilidade social através de trechos do antropólogo Hélio R. S. Silva(12):

“Invisíveis são todos os fenômenos e atores sociais que, de tão expostos e públicos, tornam-se rotineiros e naturais. Como ninguém mais notasse, pensasse ou avaliasse. Banais, prosaicos, parecem fazer parte da ordem das coisas ‘desde que o mundo é mundo’”.

UM PARADOXO: (Início)

O funk, tanto os bailes como a música em si, ora é criminalizado, ora é glamourizado.

Paradoxo é que tanto sofre perseguição, quanto é glamourizado e freqüenta lugares fashions. Às vezes o funk cria expectativa, como em 2003, quando a diretora teatral Bia Lessa armou e dirigiu um desfile-espetáculo criado para a grife Blue Man no qual, segundo matéria do Suplemento Ela, do Jornal o Globo, transformou o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em um point que reuniu funkeiros e intelectuais no evento Fashion Rio. É ainda, o funk, glamourizado e ocupa horários importantes na TV. Em 2004, com grande audiência, o programa “Furacão 2000” de Rômulo Costa era levado ao ar diariamente na TV Bandeirante, no qual o apresentador destrincha todo o mundo funk, desde os bailes em vários pontos do Rio de Janeiro, quanto aos novos lançamentos do gênero. Existem outros programas, como o da ex-esposa Verônica Costa, esta, se auto-intitula “A Glamourosa” em diversos outdoors pela cidade, elegendo-se até vereadora com os votos segmentados dos funkeiros.

O FUNK TAMBÉM É FASHION E A MÍDIA SE APROVEITA DISSO: (Início)

Sob o título “O funk também é fashion”, a jornalista Adriana Bechara no Jornal do Brasil listou alguns lugares fashions nos quais o funk se fez presente no ano de 2004, demonstrando a reverência da classe média ao ritmo. Em outras matérias de jornal foram pinçadas informações, o que vem a reforçar a importância do funk também como artigo de venda de jornais, e ainda como tema de momento na mídia. Um dos primeiro a enaltecer o funk carioca foi o fotógrafo de moda Ernesto Baldan. Em 1998 fez fotos da modelo Fabiana Duarte no baile do Clube Emoções, na Rocinha, favela da Zona Sul do Rio de Janeiro. As fotos foram publicadas na revista “Vizoo”, neste mesmo ano. Em 2003 Mari Stockler, diretora de arte, figurinista e fotógrafa, lançou o livro “Meninas do Brasil”, com fotos de várias mulheres em bailes funks. Em 2004 a estilista Wendell Bráulio, no Fashion Rio, mostrou a influência do hip hop em sua coleção, além de vestir nos shows a dupla paulista de hip hop Helião e Negra Li, que neste mesmo ano lançou o CD “Guerreiro, guerreira”. DJ Marlboro apresentou-se no “Tim Festival” e é também o proprietário do selo Link Records, responsáveis pelo lançamento de vários discos de funk, principalmente em bancas de jornal, entre os CDs mais conhecidos do selo destaca-se a coletânea “Proibidão liberado”, lançada também em 2004. A boate Fosfobox, em Copacabana, na Zona Sul e o Olimpo, na Vila da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, locais da classe média carioca onde o funk é a música do momento. MC Tati Quebra-Barraco apresentou-se em show no Palco d'A Lôca, no desfile da Grife Cavalera, no São Paulo Fashion Week, em São Paulo. A mesma MC foi convidada a participar do "Festival Ladyfest", em Stuttgart, na Alemanha, além de apresentar-se também em uma festa para convidados no Palácio da República, em Berlim e ainda fez shows em Berlim, Zurique e Amsterdã. Também no âmbito internacional o funk também aparece em outros lugares fashions: O DJ Zé Pedro comandou um baile funk na principal loja de departamentos em Londres, no caso a Selfridges, que usualmente usava um tradicional coquetel de abertura. MC MR. Castra e DJ Marlboro apresentaram-se em épocas diferentes na casa noturna Favela Chic, em Paris.

Segundo MC Mr. Castra:

“O funk ainda hoje é discriminado. Só que é fashion na Europa e em Israel. O que vem lá de fora é valorizado. Enquanto estava aqui direto nunca tive o reconhecimento”.


PROGRAMAS DE TV E RÁDIO SOBRE O FUNK: (Início)

O Programa da Xuxa, na Rede Globo, foi um dos que absorveu o funk, a tal ponto que, quando a apresentadora entrou de férias foram convidados para substituí-la vários artistas famosos, entre eles Ivete Sangalo, Sandra de Sá e a dupla Claudinho & Bochecha, uma das mais famosas do funk na época. Outro programa também importante para a difusão do funk foi “Big Mix”, programa de rádio de DJ Marlboro iniciado na Rádio Manchete no final da década de 1980, assim como o programa de televisão de Rômulo Costa, anteriormente citado.

A CRIMINALIZAÇÃO DO FUNK NA MÍDIA: (Início)

Certos programas não acrescentam nada ao movimento hip hop ou ao movimento funk. Como foi citado anteriormente, o grupo Racionais MCs recusou o convite da produção do “Domingão do Faustão”. Sobre esta questão a MC Tati Quebra-Barraco declarou em entrevista no documentário “Sou feia, mas tô na moda”, de Denise Garcia:

“Não ligo para mídia. Se o Faustão me chamar no programa dele, até vou lá, mas falar que vou gostar seria mentira”.

As perseguições são freqüentes e passam diariamente em programas populistas tipo Ratinho, Hebe Camargo, Gugu, Leão, Aqui e Agora e tantos outros chamados por Elizabeth Rondelli (13) de “O mundo do nós” e “O mundo do eles”.
Segue o fragmento do texto “Media, representações sociais da violência, da criminalidade e ações políticas - com o sub-título Os medias tecem identidades”

“Os medias não deixam de ser espaço de definição e de negociação de identidades. Caso de alguns programas de televisão, particularmente os jornalísticos, opera-se com dois universos contrapostos: o mundo do nós e o mundo do eles. A televisão, para se articular ao nível narrativo com processo de identidade, se apresenta, nos programas cujos convidados são de extração social mais elegante, como um nós da televisão, que falam de nós entre nós mesmos – pessoas da televisão, do mundo artístico, jornalístico, político e empresarial, que sabem respeitar as regras de etiqueta, do bom convívio e do correto falar, como os programas de entrevistas, por exemplo. E há os programas que falam sobre eles, aqueles que não participam desse mesmo universo de vida e de referências simbólicas e sobre os quais a televisão imprime, discursivamente, suas marcas discriminatórias. São estes basicamente os programas de auditório, os telejornais e os documentários que tematizam e são dirigidos aos pobres”.

Ainda sobre essa questão da invisibilidade e a conquista de um certo espaço que permite a visibilidade de uma identidade definitiva, Micael Herschmann, no texto “As imagens das galeras funk na imprensa”(14), conclui que, a mídia produz ‘frestas’ nas quais o ‘outro’ emerge, enquanto um espaço fundamental para a percepção das diferenças. Na medida em que a mídia dá visibilidade aos grupos urbanos marginalizados, permite que tais grupos denunciem a condição de ‘proscritos’ e reivindiquem cidadania. A construção endemoninhada do ‘outro’ pode justificar atos de violência contra ele, mas traz enumeras dúvidas e coloca em cheque a imagem de uma suposta coesão do tecido social. Micael sugere que o mesmo discurso que demoniza (processos de estigmatização e criminalização) o funk é o que vai assentar as bases para a sua glamourização. Sobre essa polissemia do discurso, Mikhail Baktin avalia que cada discurso comporta uma polissemia não controlada completamente pelo sujeito. Tudo isso vai desaguar na questão da mídia enquanto arena que abriga narrativas que pretendem dar conta do real, com perspectivas diferentes e engredando sentidos diferentes, como resume o próprio Micael Herschmann, no texto “As imagens das galeras funk na imprensa”.

SOBRE O SUCESSO DO FUNK: (Início)

No início dos anos de 1990 o funk surgia como um sucesso de mídia. Uns diziam que a indústria fonográfica acabara de inventar o ritmo para repor o comércio decadente dos grupos de pagode, do axé music e principalmente do sertanejo. Com as vendas em baixa, era preciso colocar em pauta um novo ritmo comercial. Na época, o funk invadia vários espaços como academias de dança, bailes do Chapéu Mangueira, Ladeira dos Tabajaras, Quadra do Salgueiro, academias de ginástica, boates (Circus, em São Conrado, Hard Rock), clubes (Mourisco, Bouqueirão, Coqueluche, na Cidade de Deus) e até shows de samba. Alguns artistas consideravam e consideram o funk cult. No final da década de 1990 o funk da moda era o que tinha um forte apelo sexual com letras fáceis e refrão repetitivo. Logo depois o funk foi proibido, contudo em 2003 através da sanção da Lei Estadual 4.264/2003, de autoria do deputado Alessandro Calazans, do Partido Verde, os bailes foram regulamentados e autorizados novamente. O funk retornou com força total e deixou às favelas, sendo organizado desta vez até em novas boates e casa de shows como Ballroom e até em festas da Comunidade Judaica carioca, de acordo com matéria das jornalistas Maria Ganem e Natasha Néri sob o título “Classe média volta ao pancadão”, publicada no Jornal do Brasil em julho de 2004.

O FUNK VIRA DOCUMENTÁRIO: (Início)

Um dos primeiros documentários sobre o funk, “O funk carioca”, foi transmitido pelo Canal Futura no ano de 2001. Anos depois, em setembro de 2004, o documentário “Sou feia, mas tô na moda”, de Denise Garcia, usou como fio condutor da história uma das frases de impacto da MC Tati Quebra-Barraco (Tatiana dos Santos Lourenço – 1980). Considerada a MC mais polêmica do mundo funk, a MC recebeu o apelido de “Tim Maia do mundo funk” por suas declarações e posições bem definidas com relação à posição da mulher na sociedade e do funk no cenário musical brasileiro.

“Tati é a mulher do futuro. Ela tem um gênio difícil, mas fala coisas que rompem preconceitos e pede igualdade entre homens e mulheres” declarou DJ Marlboro em uma de suas entrevistas.

A própria cineasta, Denise Garcia, também define as posições da MC:

“O que Tati faz é arte política da melhor qualidade, ela está abrindo caminho para uma relação mais democrática entre homens e mulheres. E acho maravilhoso que ela não tenha tanta consciência disso, o que a torna ainda mais natural e poderosa. Subia no palco grávida de oito meses e botava o baile pra dançar e cantar alucinadamente seus refrões desavergonhados, como ‘tô podendo pagar hotel pros homens e é isso que é importante’. Ela também é novinha e não que ser aquela mulher casada, com filhos, que fica se lembrando do tempo de solteira, quando costumava transar. Sua postura é outra e as meninas que a escutam estão sacando a si mesmas”.

No filme vários artistas do funk aparecem ou dando entrevista ou atuando em bailes: Elaine das Graças, Kelly, Danielle Braz e Ana Cristina dos Anjos (vocalistas do grupo Tchutchucas), Vanessinha Picachu e é claro, Tati Quebra-Barraco, Bonde do Tigrão, Bonde do Faz Gostoso, entre outros artistas não menos importantes para o Movimento Funk.

O FUNK TÁ NA MODA E GERA MODA: (Início)

O visual funkeiro tanto atinge homens, quanto mulheres. Mas é na mulher, target preferido para qualquer tipo de lançamento de moda, que o funk encontra a sua maior expressão com relação à vestimenta. Vanessinha Picachu comenta:

“Ás vezes vou cantar vestida de um jeito e, no baile seguinte, várias meninas já estão vestidas da mesma forma”.

As meninas do funk se vestem, também, em lojas de departamento e é comum encontrar camisetas sobrepostas de cores inversas, calças brancas apertadíssima ressaltando as formas, sapatos plataforma, bonés e calças da marca Gang. Sobre o uso, principalmente das calças da marca Gang destaco que, merecidamente o crédito vai para a top model internacional Gisele Bündchen, que declarou certa vez ser a marca que mais gostava. Daí em diante as vendas subiram extraordinariamente e, como não podia deixar de ser, as mulheres do funk fizeram da marca o sonho de consumo:

Trecho de uma letra de funk:

“Calça da Gang é o que toda mulher quer, duzentos real pra deixar a bunda em pé”.

DE GÊNERO A MOVIMENTO (Início)

Aos poucos o ‘gênero’ funk vai se firmando como ‘movimento’. Isto à medida em que vai criando uma função diferenciadora dos outros movimentos anteriores como Tropicália, Jovem-Guarda e Bossa Nova, entre outros. Aos poucos o funk vai criando um panteão de personagens que vão se fixando na cultura popular. Para quem torce o nariz e acha que movimento musical somente pode ser criado por universitários e intelectuais, o funk tem desagradado muitas gente. À medida em que alguns artistas influenciam costumes, moda e criam polêmicas com relação à posições definidas na sociedade, isto através de suas atuações em processos de criação e distribuição de seus produtos – vide o ‘Funk proibidão’, que nem necessita de gravadora ou distribuidora – à medida em pessoas como a MC Tati Quebra-Barraco pensam e fazem coisas diferentes com relação à questão feminina e até certo ponto, influencia toda uma geração de mulheres de sua comunidade e parte de uma classe social a que pertence, isto sem mesmo ter que ‘queimar sutiãs’ com as feministas-intelectuais do passado. O funk prova que, além de sair do gueto, deixou também de ser somente um produto comerciável musicalmente e passou a pertencer a ala da MPB que reverencia mudanças sociais, econômicas e políticas. Talvez o Movimento Funk e o Movimento HIP Hop não sejam os únicos que neste início de milênio estejam ocupando este espaço de questionamento, tanto na mídia, quanto no individual e parte do coletivo, mas com certeza, ambos os movimentos, oriundos das classes menos favorecidas, estão mudando a cabeça de muita gente e relaciono intelectuais, classe média e classes baixas, governantes que tendem a reprimir ou rever suas posições sociais perante a alguns fatos pontuais ou não. De qualquer maneira, ainda é muito cedo para termos uma visão mais ampla de ambos os casos – o funk e o hip hop – Temos pouco mais de uma década de atuação e análise e isto é muito pouco em termos de história. Muita cabeçada ainda vai ser dada e nada pode ser afirmado com veemência. Estamos apenas no começo de tudo. O ibridísmo de ritmos como maculelê, samba, rap, marchinas, funk, macumba, maracatu etc, nos dá a única certeza: Nada será como antes depois do funk e do hip hop.


FECHAMENTO: (Início)

E para finalizar, mais uma citação, desta vez de José Miguel Wisnik:

“O papel do ensaísta é nomear coisas difíceis, se possível de maneira simples”.

BIBLIOGRAFIA: (Início)

1 – DAMATTA, Roberto. Rosa Amanda Strausz “Texto de apresentação da Coleção Palavra Urgente – Ensaio: O que é o Brasil”. Rio de Janeiro: Editora Rocco, pp 4-5.
2 - ALBIN, Instituto Cultural Cravo. “Muralistas contemporâneos”. Revista Carioquice Ano 1. Nº 2. Rio de Janeiro: ICCA, 2004, pp. 28-32.
3 - HERSCHAMANN, Micael M. “Música, juventude e violência urbana: o fenômeno funk e rap”. Revista Comunicação&Política. n.s., n2. Rio de Janeiro: Ed. Cebela, 1995, pp.89-96.
4 – Revista Os grandes do soul music. Fascículo 84-487-0761-3 Volume I “James Brown – Sex machine”. Barcelona, Espanha: Ediciones Altaya, S.A.
5 – HOLLANDA, Heloísa Buarque. “O declínio do efeito cidade partida” Revista. Carioquice Ano 1. Nº 1. Rio de Janeiro: ICCA, 2004, pp. 68-71.
6 – CAMPESTRINI, Hildebrando. Literatura Brasileira com textos e testes. São Paulo, Editora FTD S.A. 1976.
7 –ELLISON, Ralph. Invisible Man. São Paulo, Marco Zero Editora. 1990.
11 – SOARES, Luiz Eduardo. “A Segurança Pública como Questão das Esquerdas”. Fórum Social Mundial, 2001.
13 - RONDELLI, Elizabeth. “Media, representações sociais da violência, da criminalidade e ações políticas”. Revista Comunicação&Política. n.s., n2. Rio de Janeiro: Ed. Cebela, 1995, pp.97-108.
14 – HERSCHMANN, Micael. “As imagens das galeras funk na imprensa”. Linguagens da Violência. Org. Carlos Alberto Messeder Pereira. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2000, pp 163-196.


SITES CONSULTADOS: (Início)

9 - www.atlantistendamix.com.br
10 - www.dicionariompb.com.br
8 - www.markoandrade.com.br
www.cliquemusic.com.br

DISCOS CONSULTADOS: (Início)

12 – SILVA, Hélio R. S. Apresentação do CD O homem invisível, de Roberto Lara. Arrent Mermo Records, 2004

GLOSSÁRIO: (Início)

Cachorra – o mesmo que tchutchucas e popozudas - Mulher liberada
Cachorro – PM
Dindin – Dinheiro
Patrão – Chefe do tráfico
HK – Fuzil
X 9 – Delator
Função diferenciadora – Qualidade que ajuda a diferenciar alguma coisa de outra
Panteão – Conjunto de figuras públicas que perduram na memória individual ou coletiva
Target – Público alvo em propaganda e marketing


Euclides Amaral
(poeta e letrista - euclidesamaral@superig.com.br )

10.02.2005