Seu Guilherme ou ainda... Guilherme de Brito, o “Homem de Branco”, conhaque e cigarro na mão. Ex-mandarim das máquinas de calcular. Cheio de sambas guardados em seus alfarrábios-pretos, prenhe de letras e poemas batidos à máquina antiga ou escritos à mão trêmula. Boêmio ligado à família compôs para mãe, esposa, sogra, filho, filha e neto. Pintor de acordes afiados faz a poesia se unir à melodia e sambar com a linguagem no dia-a-dia. Letrista refinado, desencravou zil vezes do pote da ponta do arco-íris versos universais... que servem para qualquer povo, em qualquer época: “Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”, considerado um dos mais bonitos do cancioneiro popular, podendo ser perfilado com o de Orestes Barbosa “Tu pisavas nos astros distraída” ou de qualquer outro grande poeta como Bandeira, Drummond ou Vinicius. Sinestésico, põe melodia nos quadros e cores nas harmonias de suas composições, que na maioria das vezes prefere dividi-las irmanamente com seus diversos parceiros, que reza a lenda... mais parece a Via-Láctea, pela quantidade e qualidade dos astros. Memória embaçada, recorre à Dona Nena para lembrar algum samba ou parte da letra de alguma valsa antiga. Recebeu flores em vida quando, ao lado de outras quatro grandes estrelas, virou museu na cidade de Conservatória. Isto para que as novas gerações desfrutem de todo o seu legado de inspiração, pois nem todos terão o prazer e a chance de ser seu contemporâneo e alguns, mais privilegiados como eu, amigo e vizinho da Dona Nena e do Seu Guilherme, em Brás de Pina, subúrbio do Rio de Janeiro.
Euclides Amaral
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20.05.2005