INTRODUÇÃO
LINGUAGEM VISUAL: O GRAFITE
LINGUAGEM MUSICAL: O RAP
O RAPPER OU MC
O HIP HOP COMO CULTURA NACIONAL E SUA INFLUÊNCIA
ESTRANGEIRA
O BINÕMIO PRODUÇÃO/DISTRIBUIÇÃO
E AINDA FESTIVAIS E PRÊMIOS DO HIP HOP
O HIP HOP COMO EXPRESSÃO DE CLASSE
LINGUAGEM DO CORPO: BREAK
A VESTIMENTA
O CABELO
ORNAMENTAÇÃO CORPORAL
O HIP HOP E SUA INSERÇÃO
NO MERCADO CINEMATOGRÁFICO NACIONAL>
AS DIVERGÊNCIAS INTERNAS NO
MOVIMENTO HIP HOP
NOVOS CAMINHOS PARA O HIP HOP
BIBLIOGRAFIA
SITES CONSULTADOS
DISCOS CONSULTADOS
GLOSSÁRIO
INTRODUÇÃO: “O texto de um ensaio é como um amigo inteligente:
nem sempre tem razão, nem sempre se faz compreender da
primeira vez, nem sempre suas idéias estão de
acordo com as nossas, mas sempre nos apresenta questões
interessantes para pensar. Além disso, amigos inteligentes
jamais esgotam o assunto. Eles sabem que bom mesmo é
trocar idéias” (Rosa Amanda Strausz)(1)O hip hop sofre hoje das mesmas mazelas que o samba no início
do século XX. As semelhanças são latentes
e destacamos algumas a seguir.Ambas as culturas são oriundas de classes menos favorecidas,
tanto localizadas nos bairros do Centro, da Zona Sul, da Zona
Norte, quanto nos bairros da Zona Oeste do Rio de Janeiro, isto
para ficar somente em um Estado da Federação.
São culturas de origem negra, ainda que em alguns aspectos
foram assimiladas por outras culturas de origens diversas, como
a européia e americanas, mas basicamente, ambos, o samba
e o hip hop, são de origens afro, mesmo que, no caso
do samba, uma mescla de ritmos afro-brasileiros e no caso do
hip hop, de origem jamaicana. No caso específico do Brasil,
o hip hop absorveu características regionais deferentes,
tanto em São Paulo como em Belo Horizonte, ou mesmo em
Brasília e no Rio de Janeiro, ou ainda nos Estados da
região Nordeste.
Tanto o samba quanto o hip hop assumiram características
de movimento, detendo assim uma gama de desdobramentos.Explico melhor:O samba, além de ritmo e compasso definidos musicalmente,
traz em seu bojo toda uma cultura de comidas (pratos específicos
para ocasiões), festas, roupas (sapato bico fino, camisa
de linho etc), danças variadas (miudinho, coco, samba
de roda, pernada etc), a pintura naif de Nelson Sargento, Guilherme
de Brito e Heitor dos Prazeres, para citar apenas três
pintores consagrados, além dos artistas anônimos
das comunidades (pintores, escultores, desenhistas e estilistas)
que confeccionam as roupas, fantasias, alegorias carnavalescas
e os carros abre-alas das escolas de samba.O hip hop, assim como o samba em seus primórdios, também
passou de gênero musical para uma cultura mais variada,
assumindo assim características da região onde
é desenvolvido:Para entender melhor a semelhança entre o samba e o
hip hop, vejamos alguns aspectos da cultura hip-hop.O hip hop é reconhecido como uma ‘cultura de rua’,
assim como o movimento punk, o rock e o heavy-metal, só
para citar alguns. Como expressão artística divide-se
basicamente em:· Linguagem visual: O grafite
· Linguagem musical: O RAP (ritmo e poesia)
· Linguagem do corpo: o break
· A vestimenta:
· O cabelo:
· Ornamentação corporal:
LINGUAGEM VISUAL: O GRAFITE
(Início)
O grafite - A arte plástica urbanaDiferente do que chamamos de “pichação”,
o grafismo é reconhecido como arte urbana. A citação
é longa, mas vale a pena pelo caráter esclarecedor
de arte reconhecida pelos meios institucionais e a formação
de profissionais nesta nova área, segue o trecho do artigo
“Muralistas contemporâneos”(2)“A linha evolutiva das intervenções urbanas
na cidade do Rio de Janeiro passa pelos painéis do poeta
Gentileza, concebidos na década de 60 e hoje tombados
como patrimônio da cidade. A frase ‘Celacanto provoca
maremoto’ espalhada por Lerfa Mú ficou famosa ao
povoar a cidade nos anos 70. Ainda nesta mesma época,
Gilson – o poeta dos tapumes – deixava versos e
desenhos nas fachadas que cobriam as obras. Hoje, quem circula
pelas ruas da cidade já teve seu olhar atraído
pelo taco de Acme, um dos nomes que se destacam no grafismo
carioca... Depois de ganhar as ruas, a arte de Acme se expandiu
e chegou à galeria... Eles estão na Haus Art Contemporânea,
que fica no bairro onde vive. Copacabana... E já foram
exportados para países como França e Estados Unidos”.De outra parte da matéria, destacamos o seguinte trecho
alusivo à socialização do grafite e ainda,
de quebra, o antagonismo de grafite e pichação. 1 – idem “Raimundo Rodrigues e Júlio Sekiguchi,
artistas plásticos do grupo Imaginário Periférico,
também vêem nos murais uma forma de socialização
da arte. Desde 97, eles trabalham com a produção
de capacitação de jovens na pintura. No ‘Programa
Murais Urbanos’, ensinam essa forma de expressão
a cerca de mil alunos da Escola Municipal Matin Luther King,
situada na Praça da Bandeira. O resultado é que
as pichações das paredes da escola deram lugar
a alegres murais. A mesma proposta foi levada pela dupla à
Supervia, através do projeto Arte na Linha”.E para finalizar, em outra parte da matéria, o reconhecimento
de algumas instituições civis e governamentais:1 – ibidem “’Tenho a preocupação
de passar mais a técnica. Meu objetivo é envolver
mais os alunos num clima de cultura, ampliar os horizonte’,
explica Acme, que dá aulas de grafite na Fundição
Progresso e no ‘Projeto Talento da Vez’, da Prefeitura
do Rio. A estratégia vem funcionando. O El Ninho Crew,
formado por alunos do curso de Desenho Industrial da PUC, nasceu
de uma dessas oficinas”.O grafite é usado como projeto de inclusão social
em várias ONGS. Deixou de ser visto como algo que suja
as paredes dos grandes centros urbanos (como a pichação)
e passou a fazer parte do currículo pára-escolar
dos Animadores Culturais da Prefeitura do Rio de Janeiro.
LINGUAGEM MUSICAL: O RAP
(Início)Rap – ritmo e poesia –Como linguagem musical, o rap (rhythm and poetry), tem como
base, quase sempre, o rhythm and blues, intermediada por uma
fala concomitamente à parte musical. Com um discurso
quase sempre calcado na crônica urbana da diferença
de classes, o texto em si é usado como uma forma de protesto,
no qual mostra o problema e discursa sobre ele, fazendo com
que o ‘mito da conviviabilidade’ seja desmistificado.
Para tanto, usa o discurso que provoca tensão entre as
classes, colocando em choque as diferenças (culturais,
sociais, política etc) ou somente demonstra a ineficiência
do poder Estatal perante aos problemas da comunidade. Sobre
o “mito da conviviabilidade” Micael M. Herschmann
(3) nos diz que o Brasil sempre foi visto como um país
não-conflitual, apesar da diversidade de classes e raças
e que esse mito é posto em cheque através das
práticas do funk e do discurso do rap, que demonstra
um Brasil hierarquizado e autoritário.DJ (Disque jóquei) e o RAPPER ou MC (Mestre de cerimônia)O DJ é responsável pela instrumentação,
isto é, quem coordena e toca o mixador e a pick-up (aparelhos
que são considerados instrumentos) e dos quais retiram
sons eletrônicos, que dão o ritmo à fala
do rapper ou do MC.O RAPPER OU MC: (Início)Geralmente é o compositor da obra e quem leva o discurso
para o público. Os termos são sinônimos,
não existindo diferenças, sejam elas na qualidade
ou no tipo de expressão corporal, ainda assim há
quem defenda que são coisas diferentes.Dados históricos:Na realidade o rap (rhythm and poetry) ou ritmo e fala, ou
ainda fala ritmada, não é novo e nem foi criado
nos Estados Unidos. Há pesquisadores que afirmam que
ele, o Rap, surgiu em local, dia, mês e ano marcados.
Chegam até dar a data precisa: 12/11/1974 no Broklin,
em Nova York, fruto de experiência de dois DJ nova-iorquinos.
Outros estudiosos e também pesquisadores defendem a tese
de que o rap (hip hop) faz parte de um híbrido da cultura
negra jamaicana mesclada com aspectos da cultura afro norte-americana.
No Caribe, especificamente na Jamaica, surgiu uma cultura musical
de nome “raga”, um híbrido de ritmos jamaicanos
com ritmos africanos. Esse gênero básico serviu
como ponto de partida para alguns gêneros como o reggae,
o rap etc. Alguns pesquisadores afirmam que este gênero
híbrido “Raga” surgiu pela necessidade dos
jamaicanos de vender os discos de 45 rpm nas ruas. A afirmação
parte do princípio de que os vendedores punham para tocar
o disco em carros de som e ficavam discursando sobre o artista
que estava tocando, falando sobre aquela base rítmica.
Daí criou-se este gênero, no qual também
havia uma pausa musical para uma fala. Quando esta forma de
música chegou aos Estados Unidos foi assimilado pelos
negros americanos, que logo deram uma conotação
diferente à fala e em vez do ritmo jamaicano, improvisavam
em cima do rhythm & blues, principalmente do soul e do blues,
desencadeando o rap como conhecemos hoje. Sendo assim, o que
os jamaicano faziam seria assim como uma espécie de rap
primitivo. Outros países também envolvidos na
diáspora africana desenvolveram uma forma específica
de improviso. No Brasil, uma das que ficou mais latente foi
o partido-alto, no qual há uma pequena parte inicial
cantada com improvisos posteriores em cima de uma base rítmica
(não é explicitamente um rap na concepção
atual, pois o fator principal no caso do partido-alto é
o improviso, o que não é muito comum no rap).
Contudo, ambos tem a mesma raiz negra africana e partido-alto,
muitas vezes, também faz uso de uma pausa musical). Na
região Nordeste do Brasil há o gênero “repente”,
que muitos estudiosos ligam aos poetas provençais da
idade média e à tradição ibérica.
Será que o repente também não tem influência
dos negros africanos? Será que os nordestinos, povo formado
por quilombolas, mamelucos e mestiços, não sofreram
a influência negra também nesta forma de expressão?
Neste caso específico do gênero repente, a fala
também é ritmada. Na região sudeste, surgiu
o samba-de-breque, uma das vertentes do samba, na qual há
uma parada para que o cantor expresse através da fala
parte da letra. Temos aí uma influência também
africana ou não?.
Há relatos de tribos africanas que tinham essa forma
de expressão de fala no meio de uma música, eram
conhecidos como “griot” (contadores de história).
Isso explica a fala com pausas melódicas, o que caracteriza
muito bem o rap e não como se pensa, a música
com pausas para as falas, como nas gravações de
Vinicius de Moraes, mais ligada à nossa tradição
ibérica, daí os trovadores provençais.
De qualquer maneira, nos Estados Unidos na década de
1970 o uso desta expressão caribenha proporcionou o RAP
como conhecemos, não com a “raga” jamaicana
como base sonora, mas tendo o blues para as falas. No Brasil,
a base passou do rhythm & blues (a vertente paulista) para
o samba, isto em suas mais recentes aquisições
como Marcelo D2 e B Negão, até porque, outros
rappers cariocas como Gabriel O Pensador, Mr. Mc Castra e MV
BILL, entre outros, preferem a cultura americanizada, insistindo
em ritmos americanos como base de suas falas.
A diferença do hip hop em sua expressão mais lítero-musical,
aqui denominada RAP, com relação ao funk (expressão
mais musical do que literária-falada), é que seus
seguidores, apesar de virem ou não das camadas mais baixas
(os do Rap), geralmente são mais esclarecidos com relação
à questão social. Muitos deles, como Gabriel O
Pensador, oriundo da classe média alta, mas intimamente
ligado às questões sociais, até porque,
no caso de Gabriel, ele esteve mais próximo aos amigos
do morro que ladeava seu condomínio do que aos próprios
amigos do condomínio em que morava na Barra da Tijuca.O hip hop na expressão musical do rap assume características
próprias em cada região. No Rio de Janeiro alguns
rappers usam como base o samba e em São Paulo a preferência
para a base sonora ainda são os loops americanizados.
Curiosamente, segundo o cantor e compositor B Negão (ex-Planet
Hemp), a primeira mescla de hip hop e samba de que se tem notícia
se deu no Rio Grande do Sul, feita pelo grupo de rock De Falla.Tanto o rap quanto o funk têm como sua característica
fundamental os Mcs (Mestres de cerimônias) o qual detém
a fala central ou a voz centro na melodia, destacando-se no
Rio de Janeiro MC Tati Quebra-Barraco (funk erótico)
e Gabriel O Pensador, B Negão e Marcelo D2 (rappers).
O HIP HOP COMO CULTURA NACIONAL
E SUA INFLUÊNCIA ESTRANGEIRA: (Início)
No Rio de Janeiro o uso do compasso binário do samba
faz a principal característica do rap carioca. Talvez
porque, a fala em meio a um ritmo já estivesse cadenciada
há muito tempo nos improvisos do partido-alto ou mesmo
no samba-de-breque. Porém, não se pode afirmar
que o RAP e o PARTIDO ALTO são as mesmas coisas. O partido-alto,
segundo Nei Lopes, é uma forma de samba que mais se aproxima
da origem do batuque angolano, do Congo e regiões próximas.
Ainda segundo Nei Lopes, é a música que mais conserva
a origem afro.
O que digo é que tendo como a mesma base a música
africana, o samba de partido-alto mantém as mesmas características
básicas de improviso, o que difere da cultura ibérica
dos trovadores, estes também falavam e cantava ritmicamente
seus textos, que não têm nada a ver com as raízes
negras da diáspora africana que atingiu as Américas
e o Caribe, até porque os primeiros negros a chegarem
em Portugal datam de 1335, de acordo com o livro “A influência
do Negro no Brasil”, de Sérgio DT Macedo e o trovadorismo
e a poesia provençal da Europa datam de muito antes,
de acordo com o poeta Augusto de Campos no livro “Verso,
reverso e controverso”.
A primeira tentativa de reunir os artistas cariocas desta nova
tendência musical foi a coletânea “Tiro inicial”,
surgida no Rio de Janeiro no início da década
de 1980. Produzida pelo CEAP (Centro de Articulações
das Populações Marginalizadas) tendo como mentor
o político e ativista negro Ivanir dos Santos e como
produtor musical Mairton Bahia. A coletânea aglutinou
os primeiros valores cariocas ligados ao hip hop carioca: Gabriel
O Pensador, MV Bill e Artigo 288 (liderado pelo rapper Gilmar),
entre outros.
O BINÕMIO PRODUÇÃO/DISTRIBUIÇÃO
E AINDA FESTIVAIS E PRÊMIOS DO HIP HOP:
(Início)
Outra característica básica do hip hop em sua
expressão musical é sua afirmação
de cultura produzida na periferia e por ela consumida. Quase
sempre o próprio mercado se dá conta da importância
de parte destes artistas e com o tempo tenta inseri-los no mercado
cultural convencional. Porém, sua independência
das formas convencionais de divulgação e distribuição
do produto musical (CD e LPs) faz com que esses artistas da
periferia atinjam a um público mais imediato e ligado
na maioria das vezes à própria comunidade de origem.
Grupos como Racionais Mcs e Detentos do Rap, ambos de São
Paulo, não fizeram uso da mídia convencional para
chegarem ao reconhecimento local e depois, ao nacional. Seu
trabalho inclui aí vendas de discos e camisetas, nunca
contaram com o apoio de gravadoras e distribuidoras convencionais
e/ou ainda de grifes para as roupas produzidas.
Foram criadas várias formas de distribuição
dos discos lançados pelos grupos, entre elas, distribuição
em bancas de jornal, pontos de venda em camelôs da comunidade
e venda direta em show, além de colocação
nos pequenos comércios locais, não necessariamente
lojas de discos. Com isso os grupos partiram do universo micro
atingindo o macro e posteriormente, fazendo ou não contratos
com gravadora majors, aceitando ou não a apresentação
em programas de grande veiculação como “Domingão
do Faustão”, programa este, considerado pela maioria
dos grupos do movimento hip hop como o supra-sumo da besteira
e tipo de mídia contra a qual os grupos vêm lutando
há anos. Caso específico de aversão a estes
tipos de programas populistas, ocorreu com o grupo Racionais
MCs que se negou a participar do programa “Domingão
do Faustão”, da Rede Globo.Aos poucos, o mercado fonográfico foi percebendo a pujança
deste novo filão econômico. Os publicitários
logo perceberam que havia um target, um público-alvo
com possibilidade financeira de aquisição do produto
fonográfico e ainda, mais para frente, de toda uma gama
de produtos direcionados ao consumidor negro, como samphos,
cremes, roupa etc. Ainda que o rap ou o funk não seja
tipo de músicas feitas somente por negros. A culminância
deste reconhecimento do hip hop como produto viável e
rentável é o “Prêmio Hutus”
que reverencia toda a cultura hip hop sempre com uma grande
festa e a entrega do prêmio em várias categorias
da criação. Em novembro de 2002 o rapper paulista
Sabotage recebeu dois "Prêmios Hutus", nas categorias
"Personalidade do hip hop" e "Revelação".Pouco
tempo depois, em janeiro de 2003 foi assassinado na madrugada
de uma sexta-feira com quatro tiros quando voltava de uma festa
na região da Saúde, Zona Sul da capital paulista.
Em janeiro de 2004 a empresa Rapsoulfunk, de MC Mr. Castra e
ex-VJ da MTV, o paulista Primo Preto, foi responsável
pela contratação de artistas do universo hip hop
e funk para o "Festival Hip Hop Manifesta", um dos
principal da América do Sul. O evento aconteceu no Riocentro
e dentre os nomes internacionais contratados destacaram-se os
rappers norte-americanos Snoop Dogg e Ja Rule. Entre os artistas
nacionais estava presente o grupo paulista RZO.Na área musical surgiram diversos selos e pequenas gravadoras
não só no eixo Rio-São Paulo, como também
em cidades como Belo Horizonte e Brasília.
A Discovery, uma das principais gravadoras fora do eixo Rio-São
Paulo surgiu em 1991 em Brasília. O primeiro disco chegou
ao mercado consumidor, Brasília e as cidades satélites
Gama, Ceilândia, Taguatinga, entre outras, em dezembro
de 1991 com o título “Peso pesado”. O vinil
(LP de 12 polegadas) reuniu os rappers DJ Raffa, Marcão,
Leandronik e DF Movimento. Em 1992 a gravadora lançou
os discos do grupo Circuito Fechado, da cidade satélite
de Ceilândia, além do disco “DJ do gueto”,
de Leandronik. Posteriormente a gravadora expandiu sua atuação
contratando outros artistas, não apenas de Brasília
ou cidades satélites, mas também de outras cidades
como Bauru (SP) com a contratação do grupo Desacato
Verbal, chegando a marca de 37 títulos lançados
em poucos anos. Isto para comentar apenas uma gravadora fora
do Rio de Janeiro e São Paulo. Em São Paulo o
número de gravadoras é enorme. Só pra citar
algumas das mais importantes como a Zimbabwe Record, especializada
em música negra e ainda a BMR Publishing Music Records,
da qual faz parte o grupo Detentos do Rap, além do Selo
Selo Cosa Nostra, do grupo Racionais MCs, que lança não
somente os disco do grupo, assim como de vários rappers
como Sabotage, entre outros.. Isto tudo prova mais uma vez que
o movimento hip hop tornou-se uma realidade nacional, assim
como o samba, e não apenas uma moda passageira como outros
gêneros musicais como lambada, sertanejo, pagode e axé,
sem consistência nenhuma, não passando apenas de
invencionice do mercado fonográfico, principalmente da
área de marketing das majors internacionais.
O HIP HOP COMO EXPRESSÃO DE CLASSE:
(Início)
Em 11 de dezembro de 2004, no Caderno Idéia do Jornal
do Brasil, o ensaísta e compositor paulista José
Miguel Wisnik, também professor da USP, falou sobre seu
novo livro “Sem receita” (Editora PubliFolha). Na
matéria o professor falou sobre a importância do
hip hop, principalmente do grupo Racionais MCs, como sendo o
mais marcante fato novo da música popular brasileira:
“Como expressão social de classe, é diferente
de tudo que existiu antes”. Na matéria o jornalista
Paulo Celso Pereira perguntou:“Você falou numa palestra com o José Ramos
Tinhorão que os Racionais MC’s eram a maior inovação
da música brasileira e o Carandiru seu principal centro
cultural, por quê?”. A resposta que se seguiu explicita bem o caráter a qual
me referi anteriormente com relação ao grupo Detentos
do Rap (oriundos do Presídio Carandiru), quanto sobre
minha posição com relação ao grupo
Racionais MC.
Transcrevo a resposta do professor e ensaísta na íntegra:
“Vamos repor os termos: eu disse que o CD ‘Sobrevivendo
no Inferno’, dos Racionais MC’s, é o mais
marcante fato novo da música no Brasil desde muito tempo.
Porque, como expressão social de classe, é diferente
de tudo que existiu antes, porque é um depoimento esteticamente
contundente das mudanças ocorridas no país nos
anos 90, e porque se constitui num fenômeno de produção,
distribuição e criação de público,
que abriu uma alternativa à indústria cultural
– mesmo que assimilada por esta – vindo de fora
da linha da continuidade entre bossa nova, tropicália,
MPB e rock brasileiro. Marca um lugar diferente dessa tradição
(ainda que previsto por Caetano Veloso quando falou de ‘possíveis
novos quilombos de Zumbi’ em ‘Sampa’) e é
um depoimento vigoroso de excluídos sem escolaridade
para os quais o Carandiru tornou-se um pólo de pertinência
identitária, já que não havia outro. Porque
falei disso: no contexto do debate, no Encontro Nacional de
Pesquisadores de Música Popular, em 2001, para provocar
o Tinhorão, que sempre identificou a “imitação”
de música norte-americana como um fenômeno de classe
média alienada. No caso do rap paulista, a crueza rítmico-melódica
do gênero praticado por negros norte-americanos expressa
a realidade da exclusão urbana no país sem nenhuma
submissão. Como aplicar o modelo?. No debate, o Tinhorão
respondia que em vez de rap, devia-se fazer embolada e repente.
Numa entrevista recente, declarou, como se nunca tivesse dito
outra coisa, que o rap é a verdadeira canção
do nosso tempo. A virada não deixa de ser sensacional!”.Em entrevista ao jornalista Fernando de Barros e Silva, na
Folha de São Paulo de dezembro de 2004, Chico Buarque
também fala sobre o rap e sua força como expressão
não só musical, como também de uma classe
social se manifestando e cobrando mudanças:Trechos da entrevista de Chico Buarque:“Agora, à distância, eu acompanho e acho
esse fenômeno do rap muito interessante. Não só
o rap em si, mas o significado da periferia se manifestando.
Tem uma novidade aí. Isso por toda a parte, mas no Brasil,
que eu conheço melhor, mesmo as velhas canções
de reivindicação social, as marchinhas de carnaval
meio ingênuas, aquela história de ‘lata d’água
na cabeça’ etc. e tal, normalmente isso era feito
por gente de classe média. O pessoal da periferia se
manifestando quase sempre pelas escolas de samba, mas não
havia essa temática social muito acentuada, essa quase
violência nas letras e na forma que a gente vê no
rap. Esse pessoal junta uma multidão. Tem algo aí”.“O Lula sabe o que o cara do rap está cantando.
Ele conhece aquela voz. Não tem o direito de ignorar”.Com relação a expressão musical do rap,
Chico Buarque vai mais além e preconiza:“A minha geração, que fez aquelas canções
todas, com o tempo só aprimorou a qualidade de sua música.
Mas o interesse hoje por isso parece pequeno. Por melhor que
seja, por mais aperfeiçoada que seja, parece que não
acrescenta grande coisa ao que já foi feito. E há
quem sustente isso: como a ópera, a música lírica
foi um fenômeno do século 19, talvez a canção,
como a conhecemos, seja um fenômeno do século 20.
No Brasil, isso é nítido. Noel rosa formatou essa
música nos anos 30. Ela vigora até os anos 50
e aí vem a bossa nova, que remodela tudo e pronto. Se
você reparar, a própria bossa nova, o quanto é
popular ainda hoje, travestida, disfarçada, transformada
em drum’n’ bass. Essa tendência de compilar
e reciclar os antigos compositores de certa forma abafa o pessoal
novo. Se as pessoas não querem ouvir as músicas
novas dos velhos compositores, porque vão querer ouvir
as músicas novas dos novos compositores?. Quando você
vê um fenômeno como o rap, isso é de certa
forma uma negação da canção tal
como a conhecemos”.
LINGUAGEM DO CORPO: BREAK
(Início)
Associada à música, a dança sempre está
presente nos shows dos rappers. Neste caso específico
da dança, há a pura imitação dos
valores e passos norte-americanos. O break brasileiro ainda
não evoluiu como o Rap nacional. Não se pode dizer
que há um break nacional, como podemos afirmar com relação
à linguagem musical.
A VESTIMENTA:
(Início)
Em muitos casos, imitação dos americanos e marcas
da moda dos shoppings. Assim como outras culturas de ruas, os
skatistas e os punks, o hip hop tem sua própria grife
ao vestir, bem próxima do pessoal do skate. Geralmente
com goros, calça balão e blusas bem largas, muito
próximo ao estilo norte-americano. Em alguns casos, os
rapper usam tocas ninjas, isto para esconder o rosto devidos
à problemas com o conhecido ‘rap proibidão’.
O CABELO:
(Início)
Estilo variado de corte, mas geralmente é comum o uso
das trancinhas e cabelo black-power década de 1970, como
referência ao soul americano de James Brown. Comum também
é o uso do gorro, geralmente preto.
ORNAMENTAÇÃO CORPORAL:
(Início)
Ornamentação comum a jovens do final do milênio
(piercing, pulseiras, tatuagem, brincos, goros)
O HIP HOP E SUA INSERÇÃO NO MERCADO
CINEMATOGRÁFICO NACIONAL:
(Início)
No ano de 2002, o rapper paulista Sabotage participou como
ator (interpretando a si mesmo) e fez a trilha sonora do filme
"O invasor" de Beto Brant e pela qual ganhou o "Prêmio
Candango", de "Melhor Trilha Sonora", no "Festival
de Brasília". Ainda para este filme, trabalhou como
roteirista nas falas do personagem Anísio, interpretado
pelo músico Paulo Miklos, do grupo Titãs, que
também ganhou o prêmio de "Ator Revelação"
no mesmo festival. Neste mesmo ano, trabalhou como roteirista
no filme "Estação Carandiru", de Hector
Babenco.
AS DIVERGÊNCIAS INTERNAS NO MOVIMENTO HIP HOP:
(Início)
Como todo movimento musical há desavenças e brigas
constantemente entre alguns artistas. As brigas variam de matizes
e tons. Os paulistas dizem que os funkeiros e os rappers cariocas
são alienados politicamente, chegando a cunhar o título
de “funk-bundalelê” para o funk carioca. Os
cariocas dividem o funk na vertente “Proibidão”
– que fala das mazelas da favela e considerado adversário
de outro sub-gênero "Funk sensual – que apenas
tematiza o sexo e esquece do lado social da denúncia.
Ambos os grupos se atacam e se defendem. Há aqueles que
transitam nos dois “mundos do funk” como MC Mr.
Castra que lançou o terceiro disco, “O fiel”,
em 1999 pela gravadora Warner Music. Logo depois, afastou-se
da gravadora por achar que a mesma não trabalhou o CD,
executando apenas uma das faixas de apelo sensual, muito comum
na época. Foi muito criticado e ainda assim, paralelo
a este trabalho é considerado um dos expoentes do “funk
proibidão”. Parece que a grande briga interna se
resume a ser de gravadora ou não, ser branco ou negro,
ter público branco ou negro, público favelado
ou ‘mauricinhos e patricinhas’, enfim, uma grande
confusão ideológica para o grande público,
pesquisadores e estudiosos do assunto. O que realmente fica
claro, e somente isso, é a falta de união no hip
hop nacional. As partes se defendem em entrevista ao jornalista
João Bernardo Caldeira, do Caderno B, do Jornal do Brasil:Helião (da dupla Helião e Negra Li)“Não adianta querer criticar o sistema se a nossa
casa está desarrumada. Temos que primeiro olhar para
nós e arrumar as coisas erradas do movimento. Falta estrutura,
organização, humildade e união, tudo é
dito somente de boca pra fora.”.Gustavo Balck Alien (ex-Planet Hemp e Reggae B) completa:“O rap começou no porão, na favela, existe
um espírito de cooperação, mas isso é
um pouco figurado na hora do vamos ver. É um puxando
o tapete do outro o tempo todo.”.O rapper Vinimax confirma:“O Balck Alien tem toda razão. Existem várias
panelinhas que se fecham. Tem uma rapaziada que se acha dona
da cultura do rap”.
Entre as divergências mais famosas, destacamos o evento
“Hip Hop Manifesta”, no Riocentro em janeiro de
2004. Organizado pela empresa Rapsoulfunk, de MC Mr. Castra
e Primo Preto, o evento foi o ponto de partida na briga entre
os organizadores e Celso Athayde, dono da Produtora Hutus e
empresário de MV Bill e Racionais MC's. A Rapsoulfunk
alega que a briga foi por causa dos cachês. A empresa
ofereceu R$ 40 mil ao grupo Racionais MCs e R$ 20 mil a MV Bill.
Por achar a diferença de cachês exorbitantes, Celso
Athayde alegou que não participaria. O evento foi ridicularizado
por diversas personalidades do movimento que se acham dona da
cultura rap (como alegou Vinimax). Celso Athayde chegou a dar
declarações em jornais alegando que seria uma
grande festa, mas que não seria um evento de hip hop
e o próprio hip hop (movimento de que ele se acha porta-voz
único) não estava legitimando o festival. Ora!
A quem recorrer para legitimar o festival?. A Central Única
das Favelas (Cufa), uma organização social que
se acha ‘dona’ do movimento hip hop, criticou os
rappers que participariam do “Hip Hop Manifesta”,
isto por várias razões, até a ‘qualidade’
do público presente ‘de mauricinhos e patricinhas’.
Na época MC Mr. Castra declarou: “Foi a primeira vez no Brasil que se fez um festival
de rap onde se pagou um cachê digno”. Negra Li e Helião, na época integrando o grupo
paulista RZO, participaram do evento.Negra Li:“O RZO estava feliz da vida de poder ganhar uma graninha
e tocar junto com o Snoop. Nosso negócio é cantar.
Se a gente ficar se preocupando se a pessoa que faz o show e
o público são brancos, pretos ou playboys a gente
não vai fazer nosso trabalho direito”.Helião:“Eu respeito o Mano Brown (do Racionais MCs), mas temos
uma divergência: ele é contra irmos em rádios
ou gravadoras. Mas nosso público tem o direito de ligar
a TV e ter acesso ao rap”.O mesmo Mano Brown, considerado por muitos, da ala sectária
do Movimento Hip Hop, também criticou o rapper paulista
Xis no ano de 2002, quando Xis participou da "Casa dos
Artistas", programa da Rede SBT. Depois que apareceu no
programa "Casa dos Artistas" e "Programa do Gugu",
ambos do SBT, foi acusado de ter se vendido ao "sistema".
NOVOS CAMINHOS PARA O HIP HOP:
(Início)
Um dos novos caminhos do rap carioca é a Liga dos MCs.
O segundo encontro, produzido pela Brutal Crew Produções,
aconteceu em outubro de 2004 no Teatro Rival Br, no Rio de Janeiro,
tendo como um dos organizadores o rapper Aori. Com cinco eliminatórias,
uma por noite, e reunindo 16 MCs, o evento foi documentado em
vídeo por Matias Maxx e Remier. Esse tipo de ‘encontro’
ou ‘briga’ ficou popular depois do filme “Rua
das Ilusões”, com o rapper Eminem, o polêmico
rapper americano que teve o clipe proibido a pedido de Michael
Jackson. No Brasil, temos algo parecido, no caso o encontro
de repentistas nordestinos. No encontro são sorteados
pares de rappers que se humilham mutuamente, se atacam e por
fim acabam passando o recado com palavras e rimas. Ao final
do terceiro round e da última dupla, o vencedor é
escolhido pelo público através de palma (e vaias)
bem democráticas. O vencedor do primeiro encontro da
Liga dos MCs foi o rapper Gil, de Jacarepaguá. Mas tudo
começou em 2002, numa sinuca no bairro da Lapa, centro
do Rio de Janeiro, local onde aconteceu a primeira batalha de
rappers, a “Batalha do Real”. O evento "Liga
dos MC'S - Primeiro Campeonato Oficial de fresstyle do Rio.
L.A P A (Lugar Aberto Para Amigos)", reuniu alguns do rappers
como o paulista Xis, Don Negrone, Marechal, Castro e Aori, entre
outros, alguns são hoje veteranos e organizadores das
atuais contendas que acontecem em diversos pontos da cidade,
isso porque, são feitas eliminatórias para o grande
dia ‘D’.
BIBLIOGRAFIA:
(Início)
1 – DAMATTA, Roberto. Rosa Amanda Strausz “Texto
de apresentação da Coleção Palavra
Urgente – Ensaio: O que é o Brasil”. Rio
de Janeiro: Editora Rocco, pp 4-5.
2 - ALBIN, Instituto Cultural Cravo. “Muralistas contemporâneos”.
Revista Carioquice Ano 1. Nº 2. Rio de Janeiro: ICCA, 2004,
pp. 28-32.
3 - HERSCHAMANN, Micael M. “Música, juventude e
violência urbana: o fenômeno funk e rap”.
Revista Comunicação&Política. n.s.,
n2. Rio de Janeiro: Ed. Cebela, 1995, pp.89-96.
34– Revista Os grandes do soul music. Fascículo
84-487-0761-3 Volume I “James Brown – Sex machine”.
Barcelona, Espanha: Ediciones Altaya, S.A.
5 – HOLLANDA, Heloísa Buarque. “O declínio
do efeito cidade partida” Revista. Carioquice Ano 1. Nº
1. Rio de Janeiro: ICCA, 2004, pp. 68-71.
6 – CAMPESTRINI, Hildebrando. Literatura Brasileira com
textos e testes. São Paulo, Editora FTD S.A. 1976.
7 –ELLISON, Ralph. Invisible Man. São Paulo, Marco
Zero Editora. 1990.
11 – SOARES, Luiz Eduardo. “A Segurança Pública
como Questão das Esquerdas”. Fórum Social
Mundial, 2001.
13 - RONDELLI, Elizabeth. “Media, representações
sociais da violência, da criminalidade e ações
políticas”. Revista Comunicação&Política.
n.s., n2. Rio de Janeiro: Ed. Cebela, 1995, pp.97-108.
14 – HERSCHMANN, Micael. “As imagens das galeras
funk na imprensa”. Linguagens da Violência. Org.
Carlos Alberto Messeder Pereira. Rio de Janeiro: Editora Rocco,
2000, pp 163-196.
SITES CONSULTADOS:
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6 - www.atlantistendamix.com.br
10 - www.dicionariompb.com.br
8 - www.markoandrade.com.br
www.cliquemusic.com.brDISCOS CONSULTADOS:
(Início)
12 – SILVA, Hélio R. S. Apresentação
do CD O homem invisível, de Roberto Lara. Arrent Mermo
Records, 2004
GLOSSÁRIO:
(Início)
Cachorra – o mesmo que tchutchucas e popozudas - Mulher
liberada
Cachorro – PM
Dindin – Dinheiro
Patrão – Chefe do tráfico
HK – Fuzil
X 9 – Delator
Função diferenciadora – Qualidade que ajuda
a diferenciar alguma coisa de outra
Panteão – Conjunto de figuras públicas que
perduram na memória individual ou coletiva
Target – Público alvo em propaganda e marketing
Euclides Amaral
(poeta e letrista - euclidesamaral@superig.com.br )
10.02.2005
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