Nelson Rodrigues nasceu no Recife em 23 de agosto
de 1912 e faleceu em 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.
Seu pai era jornalista e dono de jornal. Teve um irmão
assassinado na própria redação. Era irmão
do comentarista de futebol Mário Filho, nome
verdadeiro do Estádio do Maracanã. Sua
irmã foi casada com o poeta Antônio Fraga.
Escreveu romances, folhetins, crônicas, contos e peças
de teatro. Atuou como comentarista de futebol e chegou a trabalhar
como ator em uma de suas peças, mais precisamente, Perdoa-me
por me traíres, ao lado de Gláucio Gil.
Teve várias de suas obras adaptadas para cinema e televisão,
principalmente para casos especiais da Rede Globo.
Considerado extremamente reacionário, era capaz de fazer
comentários satisfatório em relação
à ditadura militar instalada no Brasil de 1964 a 1984
e ainda chamar a esquerda brasileira de “esquerda festiva”.
De sua obra literária existe boa parte ainda inédita,
principalmente cartas de amor endereçadas a uma certa
esposa de ministro de Getúlio Vargas. Sua obra
teatral é a que mais controvérsia causou no público
e na crítica especializada. Gilberto Velho disse
uma vez: “Em Nelson Rodrigues a temática
do desvio é permanente”. Em sua obra é latente
a releitura dos mesmos códigos, indicando o caráter
multifacetado e ambíguo da vida cultural, lembrando que
a sociedade está em constante estado de anomie - doente,
instável - . Sua obra parte de uma patologia social,
chegando a uma patologia individual, na qual o indivíduo
em estado de anomia tem certos comportamentos de caráter
inovador. Nelson, assim como sua obra também
traz como indivíduo este caráter de anomalia perante
a outras pessoas, este comportamento inovador, sendo perfilado
com outras personalidades de uma lista seleta que inclui Glauber
Rocha, Chico Buarque, Caetano Veloso e
Oswald de Andrade, entre poucos outros.
Há uma grande relação entre os textos de
Nelson Rodrigues e o “Rito Dionisíaco”
grego. Esta relação está mais ao nível
do “Drama-satírico” a medida em
que é no “Agón” (Agonia)
que ele desenrola o perfil psicológico de seus personagens.
Para ele a tragédia do ser humano é a incansável
e louca procura de seu próprio sentido e sua necessidade
de definir os lugares, tanto os que ocupa, quanto os que as
pessoas ocupam em relação a ele, o que se dá
através da consciência das posições.
Nelson Rodrigues parte desta escola – que não
é racionalista – para libertar seus personagens,
pouco se importando com o “racional”, que tem como
base uma atitude messiânica e tenta explicar determinados
conceitos de posicionamentos através de lugares na sociedade
– mães, pai, irmão, inimigo, amante etc
- .
O teatro brasileiro pode ser dividido em A.N (antes de Nelson)
e D. N (depois de Nelson). O grande marco no teatro e também
na carreira de Nelson Rodrigues, se deu no ano de 1943
com a estréia da peça Vestido de Noiva,
dirigida por Ziembinski e encenada pelo grupo amador
Os Comediantes no Rio de Janeiro. A trama da peça
é desenrolada basicamente através de três
planos: Alucinação, passando pelo plano da Memória
e chegando ao da Realidade. No plano da “Alucinação”
(imaginário) Alaíde, a personagem central
da trama, dá vazão as suas aspirações
inconscientes. No plano da “Memória”, a personagem
demonstra o sentido simbólico que as pessoas têm
para com ela. No plano da “Realidade” existe o fato
acontecido, o qual ela ainda desconhece a sua condição
de vítima. Através desses três planos que
atuam em conjunto no texto é que o autor rompe com a
lógica temporal Aristotélica (começo, meio
e fim) e instaura o sentido lógico, quebrando com o tempo/espaço
e a realidade cronológica, editando um espaço
tempo psicológico, coisa que ainda não fora tentado
no teatro brasileiro até então. A peça
Vestido de Noiva revolucionou o teatro brasileiro em
vários aspectos, sendo um deles o rompimento com a mesmice
da temática da época, que se restringia em sua
maior parte às paródias portuguesas e ao teatro
nacionalista. As temáticas eram, em sua maior parte,
nacionalistas e muito regionais. Nelson abre em suas
peças uma discussão mais universalista, um tanto
quanto "Shakesperiana", não desmerecendo alguns
autores brasileiros daquela época como as tímidas
investidas de Oduvaldo Vianna em 1920, quando ele abandona
a prosódia portuguesa, abrasileirando a maneiras de falar.
As peças do carioca Joracy Camargo, principalmente
Deus lhe Pague e as obras do paulista Oswald de
Andrade em A Morta e O Homem e o Cavalo,
responsáveis por uma certa ousadia no nosso teatro do
começo do século XX até a década
de 1940 e em casos específico, montada quase 30 anos
depois em 1967 por Zé Celso Martinez Correa
o texto O Rei da Vela, de Oswald de Andrade.
Contudo, em Nelson Rodrigues as inovações
assumem um caráter menos transitório e mais consistente.
Ele explica toda a trama-incestuosa que existe em qualquer tipo
de sociedade, demonstrando que a imoralidade e outros tipos
de relacionamentos co-existem, podendo acontecerem e ser aceitos,
que a traição, o ódio, o desprezo, assim
como o amor, o carinho etc, são sentimentos e posições
que assumimos para nos definirmos sentimentalmente perante o
“outro”. Para o autor, o “homem” é
nada mais, nada menos que um animal impotente-sentimental que
precisa simbolizar e explicitar a sua condição,
necessitando assim, do outro, para lhe dar sentido.
O crítico Sábato Magaldi, aproveitando
algumas indicações do próprio Nelson
Rodrigues, divide suas peças em quatro grandes blocos:
Peças Psicológicas: A Mulher
Sem Pecado (1941), Vestido de Noiva (1943), Valsa
nº 6 (1951), Viúva, Porém, Honesta
(1957) e Anti- Nelson Rodrigues, de 1974.
Peças Míticas: Álbum
de Família (1945), Anjo Negro (1946), Dorotéia
(1947) e Senhora dos Afogados, de 1954.
Tragédias Cariocas I: A falecida
(1953), Perdoa-me por Me Traíres (1957), Os
sete Gatinhos (1958) e Boca de Ouro, de 1959.
Tragédias Cariocas II: O Beijo no
Asfalto (1960), Bonitinha, mais Ordinária
(1961), Toda Nudez Será Castiga (1965) e A
Serpente, de 1979.
A obra teatral de Nelson Rodrigues situa-se com uma
semântica singular no panorama teatral e suas características
resumem-se em técnicas de linguagem cênicas, sendo
elas: a dinâmica cinematográfica, a fotografia,
o Rito Ditirâmbico e o palco como unidade do drama. O
autor em seus textos expõe sua condição
fatalista através da condução e condição
Machadiana, do desvinculo dos centremos dos saberes e de forma
irônica e metafórica, chegando a tal ponto, como
dizem Carlos Vogt e Berta Waldman no livro
A Flor da Obsessão aludindo ao psicanalista
Hélio Peregrino: “Ele trabalha com o dia-a-dia
infame, o cotidiano prosaico, o sórdido e o banal e faz
neles aparecer o épico, o profundo, o universal, o trágico
e o sublime”. Reunindo em uma só pessoa esses antagonismos
equilibrados, Nelson Rodrigues torna-se não
só o autor de suas peças, mas confundindo-se com
seus próprios personagens, transformando-se em uma figura
polêmica, amado e odiado por tantos, de acordo do com
uma sentença proferida por Otto Lara Resende,
escrito e amigo íntimo de Nelson: “O Nelson
Rodrigues, vocês sabem, a gente mata, ou ama, como
o Código Penal pune assassinato, só nos resta
amá-lo”.
Talvez toda essa repulsa por parte dos críticos e em
algumas peças, por parte do público, tenha se
iniciado por ele estar inserido em uma temática e forma
que foi denominada e aceita por alguns críticos com “Teatro
Desagradável”, que se iniciou com a peça
Álbum de Família, de 1945. Esta peça
desagradou mais do que o autor pretendia. O poeta Manuel
Bandeira chegou a aconselhá-lo a escrever sobre
pessoas normais. A crítica caiu de pau no texto. A censura
proibiu e o público fez eco à polêmica dos
jornais da época. Nelson desafinou geral o coro
dos contentes. Na peça existe toda a sorte de relacionamentos,
indo do Incesto ao Complexo de Édipo, do Complexo de
Electra à quebra total da monotonia dos posicionamentos
dos lugares da família na nossa sociedade patriarcal.
A peça Álbum de Família e sua
trama são desenrolada na exposição de sete
fotos e tem como base a expectativa da comunidade. Porém,
é nas entre-fotos que realmente é desenrolada
a trama, onde enfim se faz a denúncia do que é
obstruído pela versão oficial. Chegando a usar
os mesmos termos do código familiar, mas não os
mesmos sistemas de significação.
O Teatro Desagradável, nos termos desta peça em
questão, traduz o nosso inconsciente e todo o deslocamento
da nossa significação. Sófocles na peça
Édipo Rei iniciou o debate desta temática
na Grécia antiga. Quando Édipo fura os próprios
olhos, cegando-se por descobrir que tinha possuído sexualmente
a própria mãe é que ele nos dá a
visão, a sua cegueira é a nossa visão.
Em Nelson desagradável Rodrigues o texto Álbum
de Família nos leva a crer no acerto dos ponteiro
simbólicos, no qual a trama incestuosa nos demonstra
a impotência sentimental do ser. A peça discorrer
numa versão não oficial do álbum –
numa versão entre-fotos – na qual há o desprendimento
do desejo, isto é, o deslocamento em busca do próprio
sentido, fundamentando o próprio sentido de tragédia
para o autor.
Euclides Amaral
(poeta e letrista euclidesamaral@superig.com.br )
10.02.2005