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HISTÓRIA |
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GÊNESIS
TORRES
Professor, pesquisador, Presidente do IPAHB e Membro da Academia
Meritiense de Letras e Artes |
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Baixada Fluminense
- Quinhentos Anos de Relatos
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Tenho procurado pensar nos últimos anos sobre
as razões que nos levaram a buscar o entendimento sobre o
passado da Baixada Fluminense, cujo objetivo, tem sido o de compreender
como se deu a colonização desta porção
do fundo da Baia da Guanabara no conjunto da colonização
portuguesa no Brasil.
Historiadores como Mattoso Maia Forte na década de 30, Waldick
Pereira, Arlindo Medeiros, José Lustosa e Lais Costa Velho
nas décadas de 50 e 60, Barbosa Leite na década de
60, 70 e 80, Ney Alberto, Ruy Afrânio, Ondemar Ferreira Dias,
Dalva Lazaroni, Guilherme Peres, Rogério Torres, Marcos Monteiro
de Barros, Cláudio de Oliveira, Stélio de Mendonça
e Armando Valente, todos ainda entre nós. São pioneiros,
que neste século que ora termina, vivem debruçados
entre conteúdos diversos da história, sociologia,
antropologia, arqueologia, geografia, cartografia e dos topônimos
para tentar explicar como se operou a ocupação desta
importante área de ocupação.
As informações sobre o conteúdo histórico
da Baixada Fluminense encontram-se dispersas e sem uma visão
do conjunto, o que dificulta a compreensão global do processo
de colonização. Para o leigo, a composição
da história não passa de um conjunto de fatos e um
amontoado de informações dispersas que não
se relacionam, é um descortinar de cenas em que a luta dos
homens, nesta vastidão de terras embrejadas e de florestas
tropicais, não passasse de epopéias inglórias
entre vencidos e vencedores, de personagens ávidos por ouro
e riquezas em terras sul americanas. Porém, não é
esta a visão dos historiadores mais conseqüentes e preocupados
com a interpretação da história.
Nas folhas surradas e amareladas de livros e documentos que o tempo
não consumiu, vamos encontrar magníficos relatos de
viajantes, escritores, cientistas e artistas plásticos, que
por aqui aportaram no século XVI como os franceses Jean de
Lery e André Thevet, os alemães Ulrich Schmidel e
Hans Staden, o padre observador e historiador do século XVII
André João Antonil, o visitador de paróquia
no século XVIII José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo,
que acabou por tornar-se entre nós o pai da história
da Baixada e outros que constantemente afluem como resultado de
pesquisas em arquivos espalhados pelo Brasil e o mundo.
Com a abertura dos portos em 1808 e depois com a Missão Artística
Francesa em 1817 começaram a chegar na Corte no Rio de Janeiro
uma grande quantidade de homens das letras, das artes e das ciências,
vinda da Inglaterra, França, Áustria, Rússia,
Alemanha, Holanda..., cujo objetivo era desvendar os mistérios
da nossa flora, fauna e ver de perto quem era nossa gente nativa
e mestiça.
Merecem destaque, pela presença na Baixada os artistas plásticos
Maurício Rugendas, Thomas Ender e William John Burchell,
os botânicos, escritores e cientistas como Spix e Martius,
Jonham Emanuel Pohl, Jonh Lucock, Daniel Kildder, Auguste de Saint-Hilaire,
Georg Henrich von Langsdorff, Charles Ribeyrolles, Jonh Mawe, Georg
Wihelm Freireyss, Richard Francis Burton e o Príncipe Maximiliano,
todos de uma forma despretensiosa e lúdica, enriqueceram
nossa historiografia, deixando legados que acabaram por tornarem-se
a grande fonte dos conhecimentos dos séculos que nos antecederam,
vivendo "in loco" a realidade geográfica e social
de nossa região.
É notório, tanto nas belíssimas telas, quanto
nos relatórios de viagens que esses pintores e botânicos
nos legaram, a impressão romântica da vida nos trópicos,
projetando para o velho mundo e para a posteridade de que o paraíso
era aqui. Vale lembrar que esses homens saíam de uma Europa
conturbada após as guerras napoleônicas, e tinham a
esperança de que o Congresso de Viena daria um novo conserto
na política européia. Para eles o Brasil apresentava-se
como uma civilização distante do mundo real, porém,
de uma pureza ingênua e que encantava os olhos e a alma desses
estrangeiros.
Na realidade, a Baixada tinha uma natureza hostil, um clima adverso
e propício a todo tipo de doenças, de várzeas
pantanosas e embrejadas, em que vários desses viajantes acabaram
por serem contaminados e tiveram que voltar para suas terras já
doentes. Outros investiram grandes somas de dinheiro nestas viagens
sem que pudessem ter o devido retorno, como o Barão e botânico
Langsdorf que experimentou em Inhomirim na subida da Serra dos Órgãos
a criação de uma fazenda para produção
de farinha de mandioca e outras culturas, o empreendimento foi um
desastre.
A ocupação da região era dispersa e rarefeita,
com núcleos localizados às margens dos rios Meriti,
Sarapuí, Iguassú e do Inhomirim, e algumas dezenas
de fazendas que não possuía, em cada uma, mais de
cem pessoas entre homens livres e escravos. O maior número
de habitantes estava nas Vilas de Iguassú, Estrela e Magé
e o restante em torno das Igrejas matrizes (as freguesias) ou nas
capelas (filiadas) em menor número. Trabalhava esta população
numa economia de subsistência ao lado de uma lavoura de cana
de açúcar, que estava longe de rivalizar com outras
regiões do nordeste (mesmo decadente) ou dos Campos dos Goitacases
que estava em alta.
Naquele cenário de Baixada do século XIX o que se
destacou mesmo, era o grande movimento dos portos de Iguassú
e da Estrela, por onde passaram, Charles Ribeyroles, Jonh Lucok,
Daniel Kildder, entre outros já citados, que pelos seus relatos
ao lado das informações e estatísticas das
exportações concluímos da importância
de tais portos.
Diante deste manancial de informações, com conteúdos
diversos nas relações humanas e do meio natural, cabe
a todos nós, aprofundar estes relatos em uma linguagem contemporânea,
adaptada aos tempos atuais e sem maquiagens, construindo a história
geral da Baixada, com a compreensão e os entendimentos que
a metodologia da ciência histórica exige.
Ao nos inserirmos no clima do Brasil 500 anos, a Baixada Fluminense
há de render tributos a esses homens que no passado deixaram
a sua contribuição diretamente: ora fazendo, ora construindo,
ora escrevendo e ora incentivando. Tiveram talvez, a preocupação
para que aquele momento não fosse esquecido para as populações
futuras. Na atualidade, queremos render as nossas homenagens a todos
os governantes que de forma direta tem contribuído para não
deixar cair no esquecimento os feitos do passado, bem como os do
presente. Nessa galeria quero incluir o Dr. Sebastião de
Arruda Negreiros, Prefeito de Nova Iguaçu por três
mandatos, neste século, que ora termina e que deixou um grande
legado de sua obra em fotografias, mais conhecida como Coleção
Arruda Negreiros (CAN) e hoje em São João de Meriti
com o Prefeito Dr. Antonio de Carvalho, que não tem medido
esforços no sentido de mandar fotografar, filmar, recuperar
e organizar arquivos, incentivando a preservação da
memória histórica e estando sempre presente a todos
os eventos que falam da cultura de seu povo e de sua gente, mesmo
sabendo que em muitos momentos as necessidades imediatas do povo
estão acima dessas questões da preservação
do passado.
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