Junto às margens do salgado, límpidas
águas doce desaguavam, levando consigo a seiva da terra e
fazendo multiplicar as matas galerias. No encontro com a baia a
vegetação exuberante era sutilmente substituída
por ricos manguesais. A vida era um constante pulsar, renovação
permanente era a palavra de ordem. Seus montes arredondados, talhados
no processo de erosão durante milhões de anos, perdiam-se
na imensidão da natureza, marcando a existência de
ricos vales, origem das infinitas fontes da vida. De frente para
o banhado e na foz do grande rio, nascia em 1647 São João
Batista de Trairaponga, uma tosca capela, porém, com status
de freguesia.
Trairaponga nasceu grande, pois edificou primeiramente em suas
terras a cruz de Cristo. De uma ermida contemplando a baía,
a voz das cantorias gregorianas faziam coro com o canto dos pássaros
da terra. Tudo era encanto.
Fugiam-se os anos, gentes dalém mar chegavam movidas
por sesmarias. Vinham também na busca da riqueza do ouro
e da madeira, outros ávidos de terra, outros por nobreza,
outros fugitivos de guerras, outros por perseguições
religiosas, outros por punições e castigos e outros
por aventuras, enfim muitos outros que nos porões de galeras
horrendas, feridos na pele e na alma, chegaram aos montes e eram
despejados pelo litoral. Este era o espírito do homem colonizador.
Terras ou dinheiro.
Para possuir a terra, escravizaram e mataram seus primitivos habitantes,
os índios tupinambás. Afinal o homem branco, malicioso,
"civilizado", dominando armas poderosas e grande capacidade
de persuasão enquanto o índio, ingênuo, fazia
uso de zarabatanas, rudes instrumentos de caça e de sobrevivência.
Era necessário trabalhar a terra. Trouxeram do outro lado
do mar, nossa irmã siamesa África. Seus filhos removeram
a terra, abriram sulcos e sob o ignóbil chicote produziram
o doçura, fazendo a riqueza de poderosos senhores. Para sobreviver,
cultivaram os grãos brancos, pretos e amarelos, não
tinha o trigo, mas, da rica raiz extraíram a farinha e o
polvilho de gosto apurado e no fabrico de ricos quitutes. Do azedume
fabricaram o líquido que embalava a distância das mães
pátria. O Senhor proveu a terra e o homem trabalhou.
Duzentos anos passaram-se e viva os bandeirantes. Descobre-se a
riqueza obstinadamente procurada. A colônia passa a ter outro
endereço e a exploração encaminhou-se para
o interior. Esta terra virou passagem obrigatória do ouro
e depois o café. As sesmarias dessas ricas freguesias encheram-se
de gente e viraram vilas e suas vilas foram visitadas. Famosos senhores
letrados e artistas cheios de encantos, tudo contaram. Assim viveu
a terra por um longo século.
Pacatas fazendas, perdidas no baixadão ou enroscadas entre
um morro e outro, servia para satisfazer os interesses de uma nobreza
nobiliárquica e de homens de raiz.
No rastro do progresso do século passado, Trairaponga transforma-se
em Meriti trazendo junto de sí as conseqüências
do progresso civilizatório. Chegam as estradas de ferro e
o desmatamento fruto da incontida locomotiva, pois a sua
circulação estava intrinsecamente ligada a existência
desta fonte de energia o carvão vegetal. O desmatamento
predatório e criminoso, trouxe o assoreamento dos rios e
as matas galerias desapareceram, surgiram novos pântanos,
enxugaram-se outros e mudou a fisionomia ecológica. Agoniza
o Merity.
Veia aberta no coração da Baixada. O rio Merity assiste
o fim de seus barcos e canoas, já não mais singrarem,
como outrora, suas águas como antigo meio de comunicação.
Seus infinitos riachos e igarapés começam a secar,
enfim, todos, são colocados na vala comum da história,
dentro do processo do progresso a qualquer custo, conseqüência
de uma visão de que a natureza possui infinita capacidade
de renovação e de que tudo suporta. Esses fatos custaram
um alto preço. Apareceram as doenças, as febres palustres
e a cólera mórbus, dizimando grande parte da população.
O século dezenove e a primeira metade do vinte, deixava
o povo em permanente estado de prontidão, como não
havia recursos e a população vivia em estado de pobreza
permanente, morria-se a qualquer surto. Ao final do século
passado, após um surto na Freguesia de São João
Batista, a população com maiores recursos muda-se
para as margens da estação de Merity (Leopoldina Rallway),
atual Caxias, onde o povoado vivia em melhores condições.
Este homem resultado de um intenso processo de miscigenação.
Do seu cruzamento participaram portugueses de origem bárbara,
árabe, sarracena e judaica, indígena e negra, européia
central, asiática e mongólica. O mundo estava aqui,
tentando criar neste imenso paraíso, um espaço de
sobrevivência sócio-econômica.
Com o fim da escravidão, escasseiam-se os recursos de mão
de obra disponível e as grandes fazendas vão sendo
fracionadas em sítios e chácaras, surge na região
uma pequena casta de infinitos pequenos proprietários que
acabam por desenvolver atividades da fruticultura e hortigranjeiros,
com a finalidade de abastecer a cidade do Rio de Janeiro.
O processo desenvolvimentista deste século, o inchaço
populacional e a exploração imobiliária pelo
aumento constante do metro quadrado do solo na capital, acaba empurrando
grandes contingentes populacionais, para estas históricas
terras.
Fim da Segunda Guerra e com ela o fim da era Vargas. Seca no nordeste,
capitalização do campo, crise no sistema de parceria,
saída em massa do campo é o êxodo rural.
A capital não suporta as grandes massas trabalhadoras que
são empurradas para a periferia. As fazendas fracionadas
em sítios e chácaras com seus imensos laranjais e
horti-fruti-granjeiros, transformam-se em áreas de loteamentos,
de grilagem e ocupações irregulares. Freguesias viram
Distritos e estes em municípios. A Estação
de Merity com seu povoado em volta, vira o 8º Distrito em 1931
com o nome de Duque de Caxias e São Matheus vira 7º
Distrito com o nome de Nilópolis, todos desmembrados de Meriti
que pertencia a Nova Iguaçu. Após o regime de exceção,
na esteira do populismo o 8º Distrito emancipa-se ganhando
status de Município levando consigo São João
de Meriti, que é transformado em seu 2º Distrito. São
João de Meriti, não se conforma e em 1947, emancipa-se
de Duque de Caxias e na mesma lei, Nilópolis de Nova Iguaçu.
Esta terra sempre foi guerreira, seu passado tem sido um exemplo
de luta e de perseverança. Hoje mais do que nunca devemos
ter fé, pois vale a pena acreditar nas mudanças e
transformações. É tempo de uma nova realidade,
pois, a esperança sempre renasce nestas terras que tem como
patrono São João Batista.