HISTÓRIA
     
  GÊNESIS TORRES
Professor, pesquisador, Presidente do IPAHB e Membro da Academia Meritiense de Letras e Artes

De Trairaponga a Meriti

Junto às margens do salgado, límpidas águas doce desaguavam, levando consigo a seiva da terra e fazendo multiplicar as matas galerias. No encontro com a baia a vegetação exuberante era sutilmente substituída por ricos manguesais. A vida era um constante pulsar, renovação permanente era a palavra de ordem. Seus montes arredondados, talhados no processo de erosão durante milhões de anos, perdiam-se na imensidão da natureza, marcando a existência de ricos vales, origem das infinitas fontes da vida. De frente para o banhado e na foz do grande rio, nascia em 1647 São João Batista de Trairaponga, uma tosca capela, porém, com status de freguesia.

Trairaponga nasceu grande, pois edificou primeiramente em suas terras a cruz de Cristo. De uma ermida contemplando a baía, a voz das cantorias gregorianas faziam coro com o canto dos pássaros da terra. Tudo era encanto.

Fugiam-se os anos, gentes d’além mar chegavam movidas por sesmarias. Vinham também na busca da riqueza do ouro e da madeira, outros ávidos de terra, outros por nobreza, outros fugitivos de guerras, outros por perseguições religiosas, outros por punições e castigos e outros por aventuras, enfim muitos outros que nos porões de galeras horrendas, feridos na pele e na alma, chegaram aos montes e eram despejados pelo litoral. Este era o espírito do homem colonizador. Terras ou dinheiro.

Para possuir a terra, escravizaram e mataram seus primitivos habitantes, os índios tupinambás. Afinal o homem branco, malicioso, "civilizado", dominando armas poderosas e grande capacidade de persuasão enquanto o índio, ingênuo, fazia uso de zarabatanas, rudes instrumentos de caça e de sobrevivência.

Era necessário trabalhar a terra. Trouxeram do outro lado do mar, nossa irmã siamesa África. Seus filhos removeram a terra, abriram sulcos e sob o ignóbil chicote produziram o doçura, fazendo a riqueza de poderosos senhores. Para sobreviver, cultivaram os grãos brancos, pretos e amarelos, não tinha o trigo, mas, da rica raiz extraíram a farinha e o polvilho de gosto apurado e no fabrico de ricos quitutes. Do azedume fabricaram o líquido que embalava a distância das mães pátria. O Senhor proveu a terra e o homem trabalhou.

Duzentos anos passaram-se e viva os bandeirantes. Descobre-se a riqueza obstinadamente procurada. A colônia passa a ter outro endereço e a exploração encaminhou-se para o interior. Esta terra virou passagem obrigatória do ouro e depois o café. As sesmarias dessas ricas freguesias encheram-se de gente e viraram vilas e suas vilas foram visitadas. Famosos senhores letrados e artistas cheios de encantos, tudo contaram. Assim viveu a terra por um longo século.

Pacatas fazendas, perdidas no baixadão ou enroscadas entre um morro e outro, servia para satisfazer os interesses de uma nobreza nobiliárquica e de homens de raiz.

No rastro do progresso do século passado, Trairaponga transforma-se em Meriti trazendo junto de sí as conseqüências do progresso civilizatório. Chegam as estradas de ferro e o desmatamento – fruto da incontida locomotiva, pois a sua circulação estava intrinsecamente ligada a existência desta fonte de energia – o carvão vegetal. O desmatamento predatório e criminoso, trouxe o assoreamento dos rios e as matas galerias desapareceram, surgiram novos pântanos, enxugaram-se outros e mudou a fisionomia ecológica. Agoniza o Merity.

Veia aberta no coração da Baixada. O rio Merity assiste o fim de seus barcos e canoas, já não mais singrarem, como outrora, suas águas como antigo meio de comunicação. Seus infinitos riachos e igarapés começam a secar, enfim, todos, são colocados na vala comum da história, dentro do processo do progresso a qualquer custo, conseqüência de uma visão de que a natureza possui infinita capacidade de renovação e de que tudo suporta. Esses fatos custaram um alto preço. Apareceram as doenças, as febres palustres e a cólera mórbus, dizimando grande parte da população.

O século dezenove e a primeira metade do vinte, deixava o povo em permanente estado de prontidão, como não havia recursos e a população vivia em estado de pobreza permanente, morria-se a qualquer surto. Ao final do século passado, após um surto na Freguesia de São João Batista, a população com maiores recursos muda-se para as margens da estação de Merity (Leopoldina Rallway), atual Caxias, onde o povoado vivia em melhores condições.

Este homem resultado de um intenso processo de miscigenação. Do seu cruzamento participaram portugueses de origem bárbara, árabe, sarracena e judaica, indígena e negra, européia central, asiática e mongólica. O mundo estava aqui, tentando criar neste imenso paraíso, um espaço de sobrevivência sócio-econômica.

Com o fim da escravidão, escasseiam-se os recursos de mão de obra disponível e as grandes fazendas vão sendo fracionadas em sítios e chácaras, surge na região uma pequena casta de infinitos pequenos proprietários que acabam por desenvolver atividades da fruticultura e hortigranjeiros, com a finalidade de abastecer a cidade do Rio de Janeiro.

O processo desenvolvimentista deste século, o inchaço populacional e a exploração imobiliária pelo aumento constante do metro quadrado do solo na capital, acaba empurrando grandes contingentes populacionais, para estas históricas terras.

Fim da Segunda Guerra e com ela o fim da era Vargas. Seca no nordeste, capitalização do campo, crise no sistema de parceria, saída em massa do campo – é o êxodo rural. A capital não suporta as grandes massas trabalhadoras que são empurradas para a periferia. As fazendas fracionadas em sítios e chácaras com seus imensos laranjais e horti-fruti-granjeiros, transformam-se em áreas de loteamentos, de grilagem e ocupações irregulares. Freguesias viram Distritos e estes em municípios. A Estação de Merity com seu povoado em volta, vira o 8º Distrito em 1931 com o nome de Duque de Caxias e São Matheus vira 7º Distrito com o nome de Nilópolis, todos desmembrados de Meriti que pertencia a Nova Iguaçu. Após o regime de exceção, na esteira do populismo o 8º Distrito emancipa-se ganhando status de Município levando consigo São João de Meriti, que é transformado em seu 2º Distrito. São João de Meriti, não se conforma e em 1947, emancipa-se de Duque de Caxias e na mesma lei, Nilópolis de Nova Iguaçu.

Esta terra sempre foi guerreira, seu passado tem sido um exemplo de luta e de perseverança. Hoje mais do que nunca devemos ter fé, pois vale a pena acreditar nas mudanças e transformações. É tempo de uma nova realidade, pois, a esperança sempre renasce nestas terras que tem como patrono São João Batista.