Ator, crítico
de cinema, diretor e autor, nascido em Juazeiro do Norte, Ceará,
José Wilker iniciou sua carreira nas artes fazendo teatro
político e engajado em Recife, no início dos anos
60, junto ao Movimento de Cultura Popular, MCP, movimento que
trabalha para a conscientização política
da classe operária por meio da alfabetização
e da cultura popular. Depois do golpe militar, pressionado pela
repressão que coloca o MCP na ilegalidade, Wilker parte
para o Rio de Janeiro. Com Luiz Mendonça, diretor de teatro
do MCP, Isabel Ribeiro, Camilla Amado e Carlos Vereza, funda o
Grupo Chegança, no qual atua durante quatro anos em montagens
como Morte e Vida Severina e A Excelência.
Em 1965, estréia em Chão dos Penitentes,
do Teatro Jovem. No Grupo Opinião, atua em Antígona
e, em seguida, trabalha ao lado de Marília Pêra e
Dulcina de Morais em A Ópera dos Três Vinténs,
de Bertolt Brecht. Com o prêmio recebido do Seminário
de Dramaturgia monta seu primeiro texto, O Trágico
Acidente que Destronou Teresa.
O Ato Institucional nº 5 afasta-o novamente do palco. Ingressa
na Faculdade de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica,
PUC, Rio de Janeiro, curso que não concluiu. Nos anos 70,
participa dos espetáculos mais importantes do Teatro Ipanema,
no qual monta outro texto seu, A China é Azul,
e atua em O Arquiteto e o Imperador da Assíria,
de Fernando Arrabal, que lhe vale o Prêmio Molière
de melhor ator de 1970. Atua também em O Assalto,
1969, Hoje é Díade Rock, 1971, e Ensaio
Selvagem, 1974, todas de José Vicente, e As Moças,
de Isabel Câmara. Participa da montagem brasileira de A
Mãe, em 1971, dirigida pelo francês Claude Régy,
numa produção da Companhia Tereza Raquel. A partir
de 1976, afasta-se dos palcos por nove anos, mas torna-se importante
ator da TV Globo, atuando em muitas novelas, destacando-se Anjo
Mau, Gabriela, Salvador da Pátria,
Roque Santeiro, além de participação
em minisséries e direção de programas de
grande sucesso, como o humorístico Sai de Baixo.
No início dos anos 80, assume a direção da
Escola de Teatro Martins Pena, tendo como colaboradores, entre
outros, Aderbal Freire Filho e Alcione Araújo. Retorna
para o palco em 1985, com a equipe do Teatro dos Quatro, onde
a interpretação do Sr. Ponza, em Assim É...(Se
lhe Parece), de Luigi Pirandello, lhe vale seu terceiro Prêmio
Molière de melhor ator. A partir de então, atua
como diretor de teatro em importantes produções
como Sábado, Domingo e Segunda, de Eduardo De
Filippo, em 1986; Perversidade Sexual em Chicago, de
David Mamet, em 1989; A Morte e a Donzela, de
Ariel Dorfman, 1993; Querida Mamãe, de Maria Adelaide
Amaral, em 1994.
Sua grande paixão é o cinema. A primeira aparição
de Zé Wilker na telona foi em A Falecida, em 1965.
Já atuou em mais de trinta filmes, participando de clássicos
do cinema brasileiro como Xica da Silva e Bye bye
Brasil,de Cacá Diegues e Dona Flor e seus Dois
maridos, de Bruno Barreto. Produziu e atuou no filme
Guerra de Canudos, de Sérgio Rezende. Chegou a atuar
também numa produção do cinema americano,
Medicine man. Nos anos 90, inicia sua carreira de crítico
de cinema, fazendo programas para a TV e escrevendo sobre o tema
em jornais, tornando-se assim, um dos mais importantes e conceituados
críticos do país. Suas crônicas sobre a sétima
arte viraram livro em 1996, com a publicação de
Como deixar um relógio emocionado.
Desde 2003, Zé Wilker é presidente da produtora
de cinema Rio Filmes. Atualmente, o ator tem um programa no rádio
e na TV sobre cinema e está na novela da Rede Globo,
Senhora do Destino.
Na entrevista a seguir, o artista fala da sua relação
com a escrita e com a crônica, do cinema digital, produções
independentes e patrocínio.
Zona
Cultural - Como foi a experiência
de escrever pra um jornal, como o público reagia às
suas crônicas, como era a aproximação dos
seus leitores?
José Wilker
- A experiência de escrever para um jornal foi, antes de
mais nada, disciplinadora. A obrigação de produzir
um texto semanal, com tamanho e conteúdo definido, nos
leva a uma atitude especial face aos acontecimentos à nossa
volta, tudo passa a ser – ou deve passar a ser – assunto,
fonte de inspiração. Ou seja: é fundamental
estar atento a tudo que acontece; é importante perceber
o que há por trás de assuntos do dia a dia para
descobrir o drama oculto neles – ou inventar um drama escondido
neles. Mas, como se tratava de escrever para um jornal diário,
também era importante evitar as “prolixidades das
profundas reflexões”. Tratei sempre o leitor como
meu cúmplice, como alguém que também tinha
percebido o que eu tinha percebido, como se a única coisa
que nos distinguia era o fato de que eu tinha um espaço
no jornal. Enfim, eu não estava ali a inventar absolutamente
nada, apenas colocava em ordem determinadas coisas que o leitor
tinha deixado de lado por conta da pressa atropelada nas tarefas
do cotidiano.
ZC
- Qual a linguagem que você procurava usar na crônica?
José Wilker
- A linguagem era o mais simples possível. Coloquial, direta.
Sem muitos adjetivos.
ZC
- Qual o tema que lhe motivava a escrever, além
do cinema?
José Wilker
- Tinha o compromisso de escrever sobre cinema. Mas, eu entendo
que cinema é uma coisa que é importante na medida
em que invade e se deixa invadir pelo dia a dia. Sendo assim,
usei o cinema para entender o cotidiano e o cotidiano para revelar
sentidos aparentemente ocultos nos filmes.
ZC
- Qual foi o seu percurso na escrita? Como você
foi se apropriando dela? E o que você pretendia com ela,
ou seja, você tinha algum objetivo de que as crônicas
tivessem alguma função específica, esperava
que atingissem o público de uma maneira particular?
José Wilker
- Eu sempre escrevei por absoluta necessidade. De entender o que
acontece em mim, à minha volta, no meu tempo. Quanto a
uma função específica, não sei. Lembro
que, muitas vezes, queria mais tocar no coração
do leitor que na sua “inteligência”.
ZC
- Assim como o cinema, as crônicas podem romper
com as fronteiras da realidade, ao se apropriar do real e transformá-lo,
contando-o de outra forma. Quais outras aproximações
você poderia fazer entre a crônica e o cinema?
José Wilker
- Eu escrevia as crônicas como quem pensa cenas de filmes.
Queria que as pessoas lessem e imaginassem as crônicas projetadas
nas telas. Interessante é que algumas delas vão
ser transformadas em filmes.
ZC
- O que você acha do cinema digital. Esta nova forma
de fazer cinema pode desburocratizar os meios de produção
da sétima arte?
José Wilker
- O cinema digital é o futuro. Trata-se de uma revolução
tão importante quanto a chegada do som aos filmes. Claro,
como em toda revolução, haverá um período
de instalação gravemente conturbado, mas será
um período necessário e inspirador.
ZC
- Como você analisa um número cada vez maior
de produções independentes de qualidade?
José Wilker
- As produções ditas independentes trabalham com
o razoável descompromisso com relação a determinadas
regras do mercado. Abordam assuntos, temas que o “grande
cinema” evita ou retoma os temas deste e os vê por
um ângulo diferente. Arriscam e podem arriscar, na medida
em que trabalham com custos bem menores que aqueles do “mainstream”.
Não é garantia de bons resultados, mas sinaliza
para alternativas que vão além da mesmice da produção
atrelada à obrigação de promover bom retorno
financeiro. Nesse sentido, quase sempre propiciam novidades que,
se fracassam num primeiro momento, acabam se tornando êxitos
nas temporadas futuras.
ZC - Há
algum meio de fazer com que o dinheiro do governo e de instituições
que apóiam a cultura sejam disponibilizados para fazer
um cinema de arte? Por que as verbas caem sempre na mão
de um mesmo grupo que, muitas vezes, tem apoio de grandes empresas?
Como incentivar o novo cineasta?
José Wilker
- Muitas das verbas dos governos vão para os chamados filmes
de arte. Nos últimos dez anos surgiram no Brasil cerca
de sessenta novos cineastas, altamente incentivados. Quanto ao
fato da grana ir parar nas mãos de um mesmo grupo, eu diria
que isto está mudando, mais lentamente do que seria desejável,
claro. De qualquer maneira, não se pode esquecer do fato
de que essas “mãos” são – na maioria
dos casos – altamente competentes. A tendência é
que a competência permaneça e que os lobistas de
ocasião percam terreno.
Leia
a resenha de José Wilker.