ENTREVISTA
Muniz Sodré
O tempo especial do samba
Leopoldo Guilherme Pio

O livro Samba, o dono do corpo, de Muniz Sodré, foi publicado originalmente em 1977 e reeditado em 1998. Mesmo após quase 30 anos da primeira edição, o livro continua a parecer original e fundamental para todo interessado em cultura brasileira. Professor da Escola de Comunicação da UFRJ, Sodré é autor de livros como Estética do grotesco e o recente Antropológicas do espelho. Em entrevista (melhor seria dizer “aula”) concedida no dia 07 de julho, Muniz Sodré discutiu não só os significados sociais do samba, mas também a relevância da religião afro-brasileira e da cultura do Rio de Janeiro na formação da identidade nacional brasileira, com a simplicidade dos grandes pesquisadores.


Zona Cultural - Como surgiu o seu interesse pelas características culturais e históricas do samba?

Muniz Sodré - Meu interesse vem do interesse pelas coisas do negro. Tenho um posto na hierarquia do candomblé. E na comunidade do terreiro, não se cuida apenas do religioso em si mesmo, que caracteriza o cristão, as grandes religiões, o islamismo... já o culto africano, nagô, é uma forma de vida. É preservação, continuidade de uma forma de vida milenar, anterior dezenas de séculos ao cristianismo. Tudo nessa forma de vida se entrelaça. Então a dança e o ritmo se integram no culto; o culto é uma coleção de formas, de danças, de cânticos de objetos, de atitudes. E o samba é uma forma expansiva de um dos aspectos do culto. Quer dizer, o culto tem uma forma, percebida na roda onde se dança. Pode-se dançar liturgicamente, de uma forma “devota”, pela possessão; e pode-se dançar nos intervalos do culto de maneira lúdica, brincando. Muitos destes passos do samba saíram do culto afrobrasileiro. Então eu me interesso pelo tema não só porque eu goste de samba; eu gosto é de música. E sou baiano, isso explica em parte as coisas. Em segundo lugar, como diz Mário de Andrade, existe um mistério porque a síncopa caracteriza tanto a música brasileira e quanto a música da diáspora – a música criada pelos negros fora da África.

ZC - Há então uma relação entre o espaço e a concepção de tempo da cultura negra, iorubá, porque este “tempo fraco” não deixa de ser significativo.

Muniz Sodré - Sim, é um tempo fraco que repercute no forte. O tempo que falta, que está ali mas que não é marcado. Este é o mistério, diz Mário. É claro que a síncopa existe em outras culturas musicais, mas como ornamento. Na música brasileira, trata-se de uma “síncopa iterativa”, ela “viaja” e está o tempo inteiro em determinado gênero, que é o que caracteriza o samba. Este é um ensaio explicativo sobre o sentido da síncopa. É claro, é só uma hipótese, mas acho que faltou a Mário saber o que representa Exu no culto. Então eu vinculei a síncopa a Exu: o tempo que falta é também como Exu no culto, um tempo suspenso; é preciso colocar Exu de fora senão as coisas se perturbam, porque ele é um princípio de puro movimento; e o ritmo implica pausa, ordem, coordenação. E no lugar deste tempo que falta entra o corpo e a dança. Quando a música é fortemente sincopada, ela convida o corpo a dançar. Esta, na verdade, é a explicação do livro.

ZC - Mas de que forma você explicaria a força simbólica que o samba adquire a partir do final da década de 1920? O que o torna diferente de outros estilos musicais da época, populares como o samba?

Muniz Sodré - Do ponto de vista da morfologia musical, não havia muita diferença, tanto que os primeiros sambas mais pareciam marchinhas. Em primeiro lugar, acho que é preciso associar o samba ao Rio de Janeiro; analisar o gênero em sua história de discurso e como é que esse discurso (letra, forma musical) faz uma simbiose com o Rio, que sintetiza formas de vida diversas. Em segundo, como este fluxo de dança e de corpo foi trazido pelos baianos com os cultos africanos; de certo modo, a cultura popular do Rio de Janeiro foi civilizada pelos baianos negros, pelos africanos da Saúde, do cais do porto, pelas tias da Cidade Nova... para usar um termo do José Ramos Tinhorão, havia uma “promiscuidade vitalizadora” entre a classe média branca e o morro. Essa “promiscuidade vitalizadora” foi ensejada pela topografia da cidade. Por exemplo: Noel Rosa, conhecendo o pessoal da periferia de Vila Isabel, aprende sobre pastorinhas, sobre bailes... e isso influencia na música.

ZC - Voltando a questão urbana, você argumenta que as praças foram importantes para o desenvolvimento da cultura popular carioca. Hoje é possível perceber um esvaziamento dos espaços públicos, especialmente as praças. Para você esta sociabilidade e mistura contribuiu para a cultura popular?

Muniz Sodré - Na verdade, o grande diálogo com o negro e com o samba é a cidade como um todo. E o samba surge como uma síntese urbana, pois a cidade, que já era muito segregada, se encontrava no carnaval. A força do carnaval era a força da cidade. Suas vozes e seus espíritos diferentes convergiam-se em espírito único; e ali se criticavam, saíam na porrada e criticavam os políticos. O carnaval era como uma espécie de rito de diferença dos bairros; portanto, havia uma certa democracia, entendida como diferença dos lugares. Como uma ágora, porque os bairros nestas época eram como tribos, que se reuniam no carnaval para falarem juntos. Mas hoje a cidade só se reconcilia nas novelas (você refaz o Andaraí, refaz a Baixada Fluminense...) porque na realidade você tem medo da cidade.


ZC - Você diz que a letra do samba de raiz é um “discurso transitivo”, ou seja, o sambista fala da vida dele e não sobre a vida. Hoje não se vê mais esta intensidade de experiências nas letras, que aparecia mesmo na adversidade. Não se vê este prazer de viver nas letras do hip hop ou do funk...

Muniz Sodré - É verdade, embora o sambista pudesse ser crítico. Geraldo Pereira, por exemplo, fez crítica a criação do Ministério da Economia – criado por Getúlio Vargas – , em um samba que foi proibido em 1942, uma gozação terrível:
Seu presidente agora tudo vai mudar de fato/ agora tudo vai ficar barato/ agora o pobre vai poder comer/ até encher/ eu vou levar minha nega pra morar comigo/ porém agora já não há perigo/ porque de fome ela não vai comer.
Havia um prazer na gozação: o Ministério da Economia não ia mudar em nada... e o Getúlio proibiu uma obra-prima da ironia.O prazer estava implícito neste samba: a vida tá uma merda, mas eu vou levar a minha nega pra morar comigo. Hoje se vê um discurso ressentido em outros estilos, populares como o hip hop.
Aquele elogio do morro expresso nas letras das músicas: “se eu morrer amanhã, estou pertinho do céu”, “barracão de zinco e um chão de estrelas”, toda essa mitologia, acabou. Hoje, essa coisa vitalizadora está mais no subúrbio... no hip hop, no funk e também no samba de Zeca Pagodinho... um pessoal que não é necessariamente do morro. Hoje não tem mais “bamba”, o morro não tem mais valentão...!

ZC - Pra terminar, você pode citar alguns de seus sambistas preferidos?

Muniz Sodré - Dos antigos, Geraldo Pereira e Noel Rosa, um dos maiores compositores de música popular. Dos novos, Paulinho da Viola, grande sucessor deste tipo de samba. E, é claro, Chico Buarque. E também Zeca Pagodinho – eu gosto muito daquela música Vai vadiar. Mas, de todos, eu sou “parado” no Geraldo Pereira.

Leia a resenha de Samba, o dono do corpo