Há quem nunca tenha ouvido falar em
Oito e Meio,
a obra-prima do cineasta italiano Fellini. São filhos da
indústria cultural, jovens cujas mentes foram adestradas
para se interessar somente pelo que é possível de
ser consumido passivamente, ou seja, sem uso do cérebro.
Nesta escala de valores, os filmes de Hollywood ganham nota dez
e filme de arte é aquele que tem efeitos especiais incríveis.
Há também os que viram
Oito e Meio uma única
vez e consideram-se capazes de julgá-lo, taxando-o de chato
e doido. Esquecem que arte não é comunicação,
portanto não tem obrigação de comunicar algo,
muito menos da primeira vez em que é contemplada. Felizmente
há pessoas que sabem que arte exige esforço não
só de quem a faz, mas também de quem a contempla e
premiaram, em 1964,
Oito e Meio com o Oscar de melhor filme
estrangeiro. Quarenta anos se passaram e a obra de Fellini não
perdeu o seu vigor, estando na lista dos cem melhores filmes de
todos os tempos feita por Roger Ebert, o único crítico
ganhador do
Pulitzer. Não é para menos. Estamos
falando de um dos filmes mais inovadores da história do cinema.
Ainda bem que a obra de Fellini é eterna, o que garante tempo
suficiente para os que ainda não viram o filme vê-lo
– de preferência, mais de uma vez.
Oito e Meio conta a história de Guido (interpretado
por Marcello Mastroianni), renomado cineasta que passa por uma crise
de inspiração e não consegue encontrar uma
boa idéia para seu próximo filme. Com o set de filmagem
praticamente montado, está mais do que na hora do filme começar
a ser rodado, embora Guido ainda não tenha descoberto o que
pretende mostrar em sua tão aguardada obra.
O roteiro tem, na verdade, um tom bastante autobiográfico.
Fellini realmente sofreu esse bloqueio criativo, como confessou
em entrevista para o documentário de Paquito Del Bosco. “Tinha
um produtor, um contrato. Estava na
Cinecittà e
todos estavam prontos, me aguardando para fazer um filme. O que
eles não sabiam era que a minha próxima obra fugira
de mim. Os cenários estavam prontos, mas não conseguia
encontrar minha inspiração”. Após um
período de angústia e introspecção,
Fellini achou a solução. “Ouvi uma fonte e o
barulho de suas águas, tentando ouvir minha voz interior.
Então, ouvi a voz baixa da criatividade dentro de mim. Eu
sabia. A história que iria contar era de um escritor que
não sabia o que escrever”.
Indo atrás de sua imaginação criadora, Fellini
conseguiu filmar
Oito e Meio com tamanha autenticidade
que acabou bagunçando os conceitos estéticos dos anos
60. Trocou de vez o realismo de suas obras anteriores para enveredar
pelo freudismo, cristianismo, sexualismo e excessos autobiográficos.
Tudo no filme é fantástico e imaginoso. Ao libertar-se
do envolvimento dramático mais tradicional, construiu uma
obra libertina em sua estrutura.
Oito e Meio um filme que
apela inteiramente para a fantasia, não se preocupando em
juntar o real ao mágico. É magia pura, um exercício
de arte onde encontramos as obsessões do cineasta e topamos
com sua surpreendente capacidade de renovação. “
Oito
e Meio é o melhor filme de todos os tempos”, afirmou
Rubens Ewald Filho, respeitado crítico brasileiro de cinema.
Entre as cenas majestosas está o harém imaginado por
Guido, no qual estão reunidas as principais mulheres de sua
vida – esposa, amante, prostituta, atrizes e serviçais.
O desfile circense do final, com direito a personagens grotescos
e excêntricos, também merece destaque.
As seqüências são costuradas sem encadeamento
narrativo, numa espécie de documentário da memória.
“A intenção era dar uma impressão caótica.
Por isso não são personagens, e sim aparições.
Não são episódios, e sim fragmentos”,
explicou Fellini. Tal caos narrativo foi uma inovação
na linguagem cinematográfica da época, servindo, até
hoje, de fonte de inspiração para muitos cineastas.
O roteirista que vive pressionando Guido chega a dizer que o filme
é “uma série de episódios totalmente
gratuitos”, que “nem vale como obra de vanguarda, embora
tenha todas as deficiências do vanguardismo”. Lembrando
do tom autobiográfico de
Oito e Meio, pode-se notar
que os personagens estranhos e as situações insólitas
acabam transformando Guido e seus dilemas pessoais num débil
ponto de união entre os fragmentos da história. Entretanto,
diferente do que pensa o roteirista de Guido, a capacidade de criar
esses episódios gratuitos – que misturam magia, memória,
imaginação e realidade – é que torna
a obra de Fellini genial e, por isto, imortal.
O crítico Alan Stone, escrevendo para o
Boston Review,
lastimou a “tendência estilista de enfatizar as imagens
acima das idéias” de Fellini. Qual é o problema
nisso? Se Fellini preferisse as idéias à imagem, jamais
seria um bom cineasta, pois estaria combatendo a natureza de sua
própria arte. Cinema é, sem dúvida, imagem,
e estas são ainda melhores quando estão livres para
evocar associações, e não acorrentadas a propósitos
definidos. Esta e outras discussões tornam-se ainda mais
interessantes quando iluminadas pela Filosofia e suas teoria Estética.
Fellini mostrou em
Oito e Meio que não há
arte sem imaginação criadora. Como Guido, um cineasta
não consegue criar uma boa obra sem inspiração.
E se a arte exige esforço de criação do artista,
exige esforço igual de quem a contempla. A verdadeira arte
explora as contradições e as tensões, não
as deixa de lado para se comunicar mais fácil. De acordo
com Adorno, se o artista tenta se comunicar imediatamente, seu espírito
deixa de estar presente na obra, tornando-a ruim. Para o filósofo,
a obra de arte é um enigma. A linguagem do artista não
é a linguagem da comunicação. O artista se
comunica justamente pela rejeição à comunicação.
Neste sentido,
Oito e Meio precisa ser esmiuçado
até o fim a fim de ser apreciado. Quem o assiste uma única
vez vive uma experiência muito superficial e não consegue
alcançar toda a beleza que a obra tem a oferecer.
Em relação à presença de contradições
e tensões numa obra de arte, Fellini sempre esteve atento
a isso. “O artista, como qualquer homem, precisa enfrentar
com decisão as dúvidas, aceitar sua guerra. Não
pode achar que tudo já está concordado. É isso
que dá dignidade à missão do artista e do homem”,
disse. Para os que consideram
Oito e Meio um delírio,
eis a resposta do próprio Fellini: “Essa história
de confusão mental é típica dos reacionários,
que acham necessário ter idéias claras sobre tudo,
interpretar tudo de modo racional, sem precisar duvidar de nada”.
A teoria Estética revela que a arte não é necessariamente
uma repetição da realidade do mundo. Ela tem um papel
de desalienação e desmecanização da
sociedade. Arte de qualidade causa estranhamento até no que
aparentemente é familiar e, assim, o espectador redescobre
o mundo. É importante que o artista se apegue mais à
negatividade – valorização das contradições
– da arte do que à sua positividade – capacidade
de adesão à realidade. Fellini soube fazer isso como
ninguém.
Oito e Meio é obra de mestre.
1
- Título original: Fellini Otto e Mezzo; Diretor: Federico
Fellini; Itália, 1963.