CINEMA
Oito e meio: a obra eterna
Carolina Lang
Há quem nunca tenha ouvido falar em Oito e Meio, a obra-prima do cineasta italiano Fellini. São filhos da indústria cultural, jovens cujas mentes foram adestradas para se interessar somente pelo que é possível de ser consumido passivamente, ou seja, sem uso do cérebro. Nesta escala de valores, os filmes de Hollywood ganham nota dez e filme de arte é aquele que tem efeitos especiais incríveis. Há também os que viram Oito e Meio uma única vez e consideram-se capazes de julgá-lo, taxando-o de chato e doido. Esquecem que arte não é comunicação, portanto não tem obrigação de comunicar algo, muito menos da primeira vez em que é contemplada. Felizmente há pessoas que sabem que arte exige esforço não só de quem a faz, mas também de quem a contempla e premiaram, em 1964, Oito e Meio com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Quarenta anos se passaram e a obra de Fellini não perdeu o seu vigor, estando na lista dos cem melhores filmes de todos os tempos feita por Roger Ebert, o único crítico ganhador do Pulitzer. Não é para menos. Estamos falando de um dos filmes mais inovadores da história do cinema. Ainda bem que a obra de Fellini é eterna, o que garante tempo suficiente para os que ainda não viram o filme vê-lo – de preferência, mais de uma vez.

Oito e Meio conta a história de Guido (interpretado por Marcello Mastroianni), renomado cineasta que passa por uma crise de inspiração e não consegue encontrar uma boa idéia para seu próximo filme. Com o set de filmagem praticamente montado, está mais do que na hora do filme começar a ser rodado, embora Guido ainda não tenha descoberto o que pretende mostrar em sua tão aguardada obra.

O roteiro tem, na verdade, um tom bastante autobiográfico. Fellini realmente sofreu esse bloqueio criativo, como confessou em entrevista para o documentário de Paquito Del Bosco. “Tinha um produtor, um contrato. Estava na Cinecittà e todos estavam prontos, me aguardando para fazer um filme. O que eles não sabiam era que a minha próxima obra fugira de mim. Os cenários estavam prontos, mas não conseguia encontrar minha inspiração”. Após um período de angústia e introspecção, Fellini achou a solução. “Ouvi uma fonte e o barulho de suas águas, tentando ouvir minha voz interior. Então, ouvi a voz baixa da criatividade dentro de mim. Eu sabia. A história que iria contar era de um escritor que não sabia o que escrever”.

Indo atrás de sua imaginação criadora, Fellini conseguiu filmar Oito e Meio com tamanha autenticidade que acabou bagunçando os conceitos estéticos dos anos 60. Trocou de vez o realismo de suas obras anteriores para enveredar pelo freudismo, cristianismo, sexualismo e excessos autobiográficos. Tudo no filme é fantástico e imaginoso. Ao libertar-se do envolvimento dramático mais tradicional, construiu uma obra libertina em sua estrutura. Oito e Meio um filme que apela inteiramente para a fantasia, não se preocupando em juntar o real ao mágico. É magia pura, um exercício de arte onde encontramos as obsessões do cineasta e topamos com sua surpreendente capacidade de renovação. “Oito e Meio é o melhor filme de todos os tempos”, afirmou Rubens Ewald Filho, respeitado crítico brasileiro de cinema. Entre as cenas majestosas está o harém imaginado por Guido, no qual estão reunidas as principais mulheres de sua vida – esposa, amante, prostituta, atrizes e serviçais. O desfile circense do final, com direito a personagens grotescos e excêntricos, também merece destaque.

As seqüências são costuradas sem encadeamento narrativo, numa espécie de documentário da memória. “A intenção era dar uma impressão caótica. Por isso não são personagens, e sim aparições. Não são episódios, e sim fragmentos”, explicou Fellini. Tal caos narrativo foi uma inovação na linguagem cinematográfica da época, servindo, até hoje, de fonte de inspiração para muitos cineastas. O roteirista que vive pressionando Guido chega a dizer que o filme é “uma série de episódios totalmente gratuitos”, que “nem vale como obra de vanguarda, embora tenha todas as deficiências do vanguardismo”. Lembrando do tom autobiográfico de Oito e Meio, pode-se notar que os personagens estranhos e as situações insólitas acabam transformando Guido e seus dilemas pessoais num débil ponto de união entre os fragmentos da história. Entretanto, diferente do que pensa o roteirista de Guido, a capacidade de criar esses episódios gratuitos – que misturam magia, memória, imaginação e realidade – é que torna a obra de Fellini genial e, por isto, imortal.

O crítico Alan Stone, escrevendo para o Boston Review, lastimou a “tendência estilista de enfatizar as imagens acima das idéias” de Fellini. Qual é o problema nisso? Se Fellini preferisse as idéias à imagem, jamais seria um bom cineasta, pois estaria combatendo a natureza de sua própria arte. Cinema é, sem dúvida, imagem, e estas são ainda melhores quando estão livres para evocar associações, e não acorrentadas a propósitos definidos. Esta e outras discussões tornam-se ainda mais interessantes quando iluminadas pela Filosofia e suas teoria Estética.

Fellini mostrou em Oito e Meio que não há arte sem imaginação criadora. Como Guido, um cineasta não consegue criar uma boa obra sem inspiração. E se a arte exige esforço de criação do artista, exige esforço igual de quem a contempla. A verdadeira arte explora as contradições e as tensões, não as deixa de lado para se comunicar mais fácil. De acordo com Adorno, se o artista tenta se comunicar imediatamente, seu espírito deixa de estar presente na obra, tornando-a ruim. Para o filósofo, a obra de arte é um enigma. A linguagem do artista não é a linguagem da comunicação. O artista se comunica justamente pela rejeição à comunicação. Neste sentido, Oito e Meio precisa ser esmiuçado até o fim a fim de ser apreciado. Quem o assiste uma única vez vive uma experiência muito superficial e não consegue alcançar toda a beleza que a obra tem a oferecer.

Em relação à presença de contradições e tensões numa obra de arte, Fellini sempre esteve atento a isso. “O artista, como qualquer homem, precisa enfrentar com decisão as dúvidas, aceitar sua guerra. Não pode achar que tudo já está concordado. É isso que dá dignidade à missão do artista e do homem”, disse. Para os que consideram Oito e Meio um delírio, eis a resposta do próprio Fellini: “Essa história de confusão mental é típica dos reacionários, que acham necessário ter idéias claras sobre tudo, interpretar tudo de modo racional, sem precisar duvidar de nada”. A teoria Estética revela que a arte não é necessariamente uma repetição da realidade do mundo. Ela tem um papel de desalienação e desmecanização da sociedade. Arte de qualidade causa estranhamento até no que aparentemente é familiar e, assim, o espectador redescobre o mundo. É importante que o artista se apegue mais à negatividade – valorização das contradições – da arte do que à sua positividade – capacidade de adesão à realidade. Fellini soube fazer isso como ninguém. Oito e Meio é obra de mestre.

1 - Título original: Fellini Otto e Mezzo; Diretor: Federico Fellini; Itália, 1963.