RESENHA
José Wilker
Um olhar atento à sétima arte
Gabriela Berutto Altaf
Como deixar um relógio emocionado. José Wilker. Editora Scritta. 231 p.

Como deixar um relógio emocionado é uma coletânea de cinqüenta e seis crônicas e críticas de José Wilker. O ator e diretor além de rememorar seus primeiros contatos com a sétima arte, revela um painel da indústria cultural e analisa a filmografia brasileira e mundial. Atores, diretores, cenas, takes e trilhas sonoras transpassam pelas lentes do cronista, que oferece ao leitor as observações de seu olhar atento sobre a arte cinematográfica, permitindo, assim, que ele penetre na essência desta.

José Wilker utiliza-se da literatura não só para falar como também para fazer cinema com as palavras. A profusão de imagens escritas, interpostas na mescla de ficção e realidade, provoca no leitor uma sensação inusitada e inaugural, a de parecer estar lendo um filme. Crônica e cinema enlaçam-se e assim, o autor vai fazendo sua escrita, transformando o roteiro do cotidiano, em cenas saborosas, ávidas para a leitura de seus espectadores.

As crônicas de Como deixar um relógio emocionado são um pequeno extrato da vida do autor, suas impressões sobre a arte de representar, de encenar, de filmar, e, sobretudo, sobre sua forma de olhar para a vida, que se assemelha à essência do cinema. Nas palavras do autor: “...a percepção fundamental para o cinema é perceber nas coisas, sons, cores ou sombras, movimentos e associações, as histórias que tudo isso tem guardado para o olhar atento de quem quiser ver. As palavras e as frases do cinema devem ser buscadas em outras fontes, não estão na ordem alfabética dos dicionários. São relâmpagos que explodem vinte e quatro vezes por segundo e, para o leitor, não exigem escola nenhuma para decifrá-los. Tudo que se pede é um olhar constante e generoso para a vida. Que se caminhe por uma rua cheia de sinais, dramas ou comédias, rua de sonhos, aspirações, desejos secretos. Na terra sem the end.”

Como deixar um relógio emocionado são relâmpagos de olhares de um ator generoso para a vida.

Leia a entrevista de José Wilker