Samba,
o dono do corpo. Muniz
Sodré. 2 ed. Mauad. 112 p.
Qual
é o mistério do samba? De que maneira um gênero
musical marginalizado se torna aos poucos elemento central da
cultura brasileira? Este dilema tem instigado boa parte da intelectualidade
nacional, da crítica musical de José Ramos Tinhorão
à antropologia de Hermano Vianna. Em Samba, o dono
do corpo, Muniz Sodré apresenta uma explicação
original sobre o tema, ao vincular o samba à lógica
cultural dos cultos religiosos afro-brasileiros. Baseado na formação
acadêmica como professor de pós-graduação
de comunicação, e principalmente em um profundo
conhecimento a respeito do candomblé, Sodré enfatiza
o papel dos rituais e das danças africanas na configuração
deste gênero musical.
O samba se caracteriza pela síncopa (ou síncope),
isto é, o último o tempo fraco, que parece faltar,
mas que instiga o ouvinte a dançar, a completar a ausência
da marcação com o corpo. Sodré associa a
síncopa do samba a Exu, divindade fundamental no ritual
do candomblé, mas que não participa diretamente
dele: “o tempo que falta na música é como
Exu no culto (...) o termo ‘dono do corpo’ é
outra maneira de dizer Exu”. Deste modo, o autor nos dá
subsídios valiosos a respeito das concepções
africanas de tempo e de ritual. Na cultura negra, “o ritmo
da dança acrescenta o espaço ao tempo (...), de
tal maneira que a forma musical pode ser elaborada em função
de determinados movimentos de dança, assim como a dança
pode ser concebida como uma dimensão visual da forma musical”.
Da mesma forma, Sodré dá relevância ao quadro
histórico e social da época e que configura as características
estéticas e temáticas do samba. O autor desvela,
sem nenhum ranço academicista, as formas pelas quais o
gênero produziu uma crônica da cidade, bem como o
encantamento de sua poética “transitiva”, tão
poderosa quanto os textos de um João do Rio. O samba “de
raiz” não fala sobre alguma coisa; ele fala da vida
do compositor e, por extensão, das camadas populares e
suas mazelas pelo viés da ironia, da crítica social
ou da paixão pela vida. Dentro deste processo criativo,
o samba “costura” e é costurado pela cidade
do Rio de Janeiro, locus da mistura social e cultural.
Por conta da sua origem popular e urbana, o samba não está
imune à indústria cultural. Partindo deste pressuposto,
Sodré demonstra de que forma o gênero é apropriado
pelos meios de comunicação de massa: se num primeiro
momento, o samba sintetizava a identidade e a resistência
da raça negra, a partir dos anos de 1920 o samba vai sendo
assimilado, ou, nas palavras do autor, “expropriado”
pelas camadas médias urbanas. Sodré se utiliza do
termo “promiscuidade vitalizadora”, de José
Ramos Tinhorão, para demonstrar a rede de influências
criada entre classe média branca e negros.
Mas são as entrevistas que trazem os elementos mais saborosos.
Os depoimentos de Pixinguinha, Donga, Heitor dos Prazeres, Ismael
Silva e Almirante não são meros complementos do
livro, mas aquilo que explica de modo mais refinado a história
e a força poética do samba. É um prazer perceber
a erudição musical de Pixinguinha, a memória
admirável de Almirante, a consciência da importância
do samba expressa por Donga. Tais depoimentos desmistificam várias
ilusões criadas a respeito do samba e dos sambistas –
como a concepção de que os compositores do gênero
são ignorantes ou “alienados” dos temas políticos
e históricos. Cabe notar que Muniz Sodré não
é apenas mais um estudioso que vê seu objeto “de
fora”. Além da sua atuação acadêmica,
que já originou mais de vinte livros entre ensaios e ficção,
Sodré convive com os cultos do Candomblé.
Enfim, um livro mais do que recomendável. Em pouco mais
de 100 páginas, Muniz consegue demonstrar de que forma
a lógica da religiosidade negra explica, ao menos parcialmente,
o poder musical, rítmico e cultural do samba. Agradável
sem deixar de ser profundo, reflexivo sem ser acadêmico,
Samba, o dono do corpo seduz porque revigora nosso interesse
em compreender as relações que compõem o
mosaico da cultura brasileira.
Leia a entrevista
de Muniz Sodré