RESENHA
Muniz Sodré
Samba e religião
Texto de 1977 mantém atualidade.
Leopoldo Guilherme Pio
Samba, o dono do corpo. Muniz Sodré. 2 ed. Mauad. 112 p.

Qual é o mistério do samba? De que maneira um gênero musical marginalizado se torna aos poucos elemento central da cultura brasileira? Este dilema tem instigado boa parte da intelectualidade nacional, da crítica musical de José Ramos Tinhorão à antropologia de Hermano Vianna. Em Samba, o dono do corpo, Muniz Sodré apresenta uma explicação original sobre o tema, ao vincular o samba à lógica cultural dos cultos religiosos afro-brasileiros. Baseado na formação acadêmica como professor de pós-graduação de comunicação, e principalmente em um profundo conhecimento a respeito do candomblé, Sodré enfatiza o papel dos rituais e das danças africanas na configuração deste gênero musical.

O samba se caracteriza pela síncopa (ou síncope), isto é, o último o tempo fraco, que parece faltar, mas que instiga o ouvinte a dançar, a completar a ausência da marcação com o corpo. Sodré associa a síncopa do samba a Exu, divindade fundamental no ritual do candomblé, mas que não participa diretamente dele: “o tempo que falta na música é como Exu no culto (...) o termo ‘dono do corpo’ é outra maneira de dizer Exu”. Deste modo, o autor nos dá subsídios valiosos a respeito das concepções africanas de tempo e de ritual. Na cultura negra, “o ritmo da dança acrescenta o espaço ao tempo (...), de tal maneira que a forma musical pode ser elaborada em função de determinados movimentos de dança, assim como a dança pode ser concebida como uma dimensão visual da forma musical”.

Da mesma forma, Sodré dá relevância ao quadro histórico e social da época e que configura as características estéticas e temáticas do samba. O autor desvela, sem nenhum ranço academicista, as formas pelas quais o gênero produziu uma crônica da cidade, bem como o encantamento de sua poética “transitiva”, tão poderosa quanto os textos de um João do Rio. O samba “de raiz” não fala sobre alguma coisa; ele fala da vida do compositor e, por extensão, das camadas populares e suas mazelas pelo viés da ironia, da crítica social ou da paixão pela vida. Dentro deste processo criativo, o samba “costura” e é costurado pela cidade do Rio de Janeiro, locus da mistura social e cultural.

Por conta da sua origem popular e urbana, o samba não está imune à indústria cultural. Partindo deste pressuposto, Sodré demonstra de que forma o gênero é apropriado pelos meios de comunicação de massa: se num primeiro momento, o samba sintetizava a identidade e a resistência da raça negra, a partir dos anos de 1920 o samba vai sendo assimilado, ou, nas palavras do autor, “expropriado” pelas camadas médias urbanas. Sodré se utiliza do termo “promiscuidade vitalizadora”, de José Ramos Tinhorão, para demonstrar a rede de influências criada entre classe média branca e negros.

Mas são as entrevistas que trazem os elementos mais saborosos. Os depoimentos de Pixinguinha, Donga, Heitor dos Prazeres, Ismael Silva e Almirante não são meros complementos do livro, mas aquilo que explica de modo mais refinado a história e a força poética do samba. É um prazer perceber a erudição musical de Pixinguinha, a memória admirável de Almirante, a consciência da importância do samba expressa por Donga. Tais depoimentos desmistificam várias ilusões criadas a respeito do samba e dos sambistas – como a concepção de que os compositores do gênero são ignorantes ou “alienados” dos temas políticos e históricos. Cabe notar que Muniz Sodré não é apenas mais um estudioso que vê seu objeto “de fora”. Além da sua atuação acadêmica, que já originou mais de vinte livros entre ensaios e ficção, Sodré convive com os cultos do Candomblé.

Enfim, um livro mais do que recomendável. Em pouco mais de 100 páginas, Muniz consegue demonstrar de que forma a lógica da religiosidade negra explica, ao menos parcialmente, o poder musical, rítmico e cultural do samba. Agradável sem deixar de ser profundo, reflexivo sem ser acadêmico, Samba, o dono do corpo seduz porque revigora nosso interesse em compreender as relações que compõem o mosaico da cultura brasileira.

Leia a entrevista de Muniz Sodré