Colunistas | Olho vivo, faro fino | 10 de setembro de 2021 - 22:00

Zé Kéti, O Sambista das Imagens

Euclides Amaral

Zé Kéti nasceu no subúrbio de Inhaúma em 16 de setembro de 1921, sendo batizado José Flores de Jesus e logo ganhou o apelido familiar de José Quieto, talvez por ser muito quieto ou apenas em contraponto ao seu modo de ser, o que é mais provável, já que durante a vida sempre foi muito comunicativo. Colocou a letra K em seu nome artístico acreditando que lhe traria mais sorte, pois estava em voga nas iniciais de Juscelino Kubitschek, John Kennedy, Grace Kelly e Nikita Kruschev.


Em 1946 teve a composição "Tio Sam no samba", com Felisberto Martins, gravada pelo grupo Vocalistas Tropicais, mas sem o sucesso alcançado com “A voz do morro”, pelo cantor Jorge Goulart com arranjo de Radamés Gnattali, o que lhe possibilitou ser incluído na trilha sonora de “Rio, 40 Graus”, de 1955, primeiro longa-metragem de Nélson Pereira dos Santos e ponto de partida do Cinena Novo. Este seu envolvimento inicial com o Cinema Novo viria a pontuar a carreira artística, tanto que, nessa produção trabalhou como ator, assistente de câmera e de produção, envolvendo a Portela e a Unidos do Cambucu. A amizade com o diretor o levaria a compor, em 1957, a trilha sonora de “Rio Zona Norte”, na qual foram incluídos os sambas "Foi ela" e "Malvadeza Durão", este último, sucesso na voz de Germano Matias, em 1959, e regravado por Nara Leão e Elizeth Cardoso nos anos posteriores. Ainda instado por Nélson Pereira dos Santos comporia a trilha para “O Boca de Ouro”, filme baseado na obra de Nélson Rodrigues, em 1962, ano em que foi convidado por Cartola e Dona Zica a assumir a direção musical do bar ZiCartola, na Rua da Carioca, no Centro do Rio de Janeiro, onde conheceu Carlos Lyra, então diretor da UNE, expandido a sua verve catalisadora, agregando intelectuais e universitários aos sambistas e compositores dos subúrbios, dando início, também, a sua fase de sambas de protesto, compondo com Carlos Lyra “Samba da Legalidade”. Por essa época, Nara Leão em seu primeiro LP gravou “Diz que fui por aí”, em parceria com Hortência Rocha, uma ode à malandragem. O ápice desta fase é a montagem do espetáculo “Opinião”, em 1964, ao lado de Nara Leão e João do Vale, que nomeou ainda um jornal de esquerda, o musical, o próprio teatro e o segundo disco de Nara Leão. Seus sambas “Opinião” e “Acender as velas” tornaram-se estandartes de uma geração inquieta com as diretrizes impostas pelo governo militar.


Sua contribuição ao Cinema Novo o envolveu com Leon Hirszman no longa “A Falecida”, de 1965, e ano posterior, em 1966, com Cacá Diegues em “A Grande Cidade”, tornando-o um dos compositores de samba mais requisitado para trilhas sonoras.


Zé Kéti ao lado de Cartola e Nelson Cavaquinho é considerado um dos pilares do samba carioca, sendo o seu legado principal as composições ligadas às artes cênicas, tornando-o um sambista das imagens, mesmo em se tratando da marcha “Máscara negra”, com Pereira Mattos e que poucos lhes dão o crédito nessa verdadeira peça em um ato sonoro.