DO PERDÃO COMO PORTFÓLIO
Demétrio Sena - Magé
Tem gente que se ostenta disposta a nos perdoar "silenciosamente", pelo que não cometemos, ou pelo mal entendido, antes de oferecer a chance para explicarmos o que realmente houve. Isso é uma espécie de porto seguro e também a chance de se sentir lá em cima e nos olhar como se fôssemos insetos agraciados pela sua grandeza perdoadora. Desfazer o mal entendido pode ser trabalhoso e até prejudicial para quem vive seu momento protagonista de novela. Muitas vezes, quem está nessa posição de "protagonismo folhetinesco" teme o risco de o mal entendido, se for desfeito, mudar de lado e mostrar que o mocinho é, na verdade, quem parecia ser o vilão.
Ocorre o mesmo, quando uma intriga sobre alguém querido, relacionada a nós, entra como brasa, em seus ouvidos, em um momento peculiar. Momento em que se calar ou escolher evitar o alvo da intriga parece propício e confortável. Bate nessas pessoas, aquela grande preguiça do garimpo criterioso da verdade. Até porque, esse garimpo pode mostrar para elas que não somos nós, os vilões, quando já terão atendido ao impulso do rancor, e obrigá-las ao ato - este sim, um exercício de humildade -, de pedir perdão, ao invés de perdoar. Terão que cessar o "eu te perdoo!", "não consigo odiar!", "não sou de guardar rancor!", que as deixariam "bem, no filme", para serem personagens coadjuvantes"; que pedem; ficam em situação inferior; dependentes da virtude alheia.
Esse "orgulho próprio" que não deixa uma pessoa querida saber o que houve, para ter a chance de dizer se houve, é perversa e covarde. Essa virtude questionável de perdoar em silêncio, sem o outro saber se tem nele, algo a ser pedoado, exibe a marca sonsa e oficial daquelas pessoas que treinam, geralmente nos templos do cristianismo pirata, a soberba do perdão implacável... da mão direita que se exibe à esquerda. De quem sabe qual é a sua parcela no moinho das culpas, mas não pode cair do trono inútil de homem/mulher "de Deus"; de cidadão magnânimo, superior, que só tem a perdoar; jamais pedir o perdão de simples mortais.
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Respeite autorias. É lei