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Enviado por Demétrio Sena em

Políticos e cidadãos entre aspas

Demétrio Sena - Magé

Para os eleitores da extrema-direita, seus ídolos políticos são sinceros porque têm "a coragem" de xingar publicamente uma mulher de vagabunda. Porque dizem, sem meias palavras, que o trabalhador quer se aposentar após décadas de trabalho e contribuições previdenciárias, porque é preguiçoso. Ou é preguiçoso, porque luta pelos direitos trabalhistas, inclusive a escala 5 por 2.

Eles acham sincero, um candidato a presidente referir-se ao outro candidato como nove dedos, em razão de sua deficiência física. Se um político da extrema-direita matar cidadãos em praças públicas, seus eleitores dirão que ele foi sincero; quis matar e o fez. E os próprios eleitores extremistas imitam seus políticos: são machistas, misóginos, racistas, homofóbicos, etaristas, truculentos e feminicidas, atribuindo a tudo isso, a sinceridade. O "eu sou quem sou".

Pois vou lhes dizer o que é uma sinceridade real, digna e de fato: é um presidente candidato à reeleição decidir, às vésperas das eleições, livrar as famílias da máfia da jogatina on-line, as bets, mesmo sabendo que os próprios viciados ficariam contra ele. Ciente de que mexeria com times de futebol, torcidas e empresários inescrupulosos; uma grande massa de eleitores. Mesmo sabedor de que seu ato beirava à burrice eleitoral; ao próprio suicídio político.

Sinceridade é esse candidato lutar por um direito essencial ao trabalhador (um dia mais de repouso), embora soubesse que "arrumaria" briga com grandes empresários, fazendeiros, banqueiros, congresso, e até com os trabalhadores medrosos de perder emprego, manipulados por seus patrões. Sabendo, inclusive que nos primeiros meses do novo mandato enfrentará uma inflação proposital, corporativista e vingativa, com a planejada cara de "nós avisamos".

Isto sim, é sinceridade. Correr esses e muitos outros riscos eleitorais, conscientemente, mas fazer o que acredita como providencial e necessário para as classes menos favorecidas. E até pras elites, relutantes em reconhecer que o que favorece as massas populacionais é revertido em benesses também para elas; afinal, um povo bem sucedido consome a contento o que as elites produzem; quando produzem. O problema é que elas não querem produzir para o país, e sim, só para si mesmas.

Sinceridade, mesmo, e coragem (sem aspas) é um político acreditar mais nos projetos para o país de todos do que nos resultados eleitorais desses projetos, cujos efeitos esperados costumam ser a longo prazo. A extrema-direita, quando apresenta projetos para o povo, são projetos imediatistas; fadados a ruir em pouco tempo ou nem serem iniciados.

Quero esta sinceridade, ou coragem, dos políticos em que acredito. Não a coragem de bater, xingar, argumentar com brutalidade, excluir, querer dominar pela religião, o racismo, todas as outras formas de preconceito e as negociatas. A extrema-direita precisa rever (e reverter) conceitos de sinceridade e coragem. Tirar as aspas.
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